
Num cenário de crescente tensão no Oriente Médio, especialmente em torno do Estreito de Ormuz — passagem de cerca de 20% do petróleo global —, Evaristo Pinheiro, presidente da Refina Brasil, observa que o Brasil deve encarar a situação como uma oportunidade para reforçar sua segurança energética. Em meio a um breve cessar-fogo entre Irã e Israel, a possibilidade de novos conflitos traz à tona riscos logísticos significativos para o abastecimento mundial. “O fechamento do Estreito de Ormuz geraria um colapso na logística do petróleo”, alerta ele.
Embora, por enquanto, o desabastecimento não seja uma realidade, a pressão nos preços já é uma consequência evidente e quase inescapável. “Ainda temos fontes de abastecimento, como Rússia e Estados Unidos, mas não podemos ignorar que os preços tendem a aumentar”, ressalta Evaristo. Diante desse cenário, a soberania energética do Brasil se torna uma prioridade indiscutível. A instabilidade internacional expõe a vulnerabilidade do país, sublinhando a urgência de se fortalecer a produção interna de combustíveis.
Na véspera do anúncio governamental que aumentará a mistura obrigatória de etanol na gasolina para 30% e do biodiesel no diesel para 15%, a Refina Brasil comemorou a decisão. Evaristo considera que essa estratégia é um passo positivo para a transição energética e para a estabilidade do setor. “O consumo de gasolina cresce 2% ao ano. Esse aumento é neutro e até favorável à segurança energética, pois abrangemos tanto o refino tradicional quanto o biorefino, que utiliza 100% de biomassa”, explica.
Entretanto, ele também alerta para as fragilidades estruturais enfrentadas pelo Brasil. O país possui apenas seis dias de capacidade de armazenamento de combustíveis e um déficit de refino de cerca de 600 mil barris por dia. Apesar de ser autossuficiente na produção de petróleo, as importações de derivados continuam a aumentar, ampliando a exposição a crises externas. A dominância da Petrobras com 60% da capacidade de refino limita a concorrência, forçando as empresas privadas a seguir preços que muitas vezes não são sustentáveis para elas.
As refinarias privadas enfrentam prejuízos quando a Petrobras vende combustíveis a preços abaixo do mercado, impedindo novos investimentos e perpetuando a dependência externa. Evaristo acredita que corrigir essas distorções é essencial para atrair mais de R$ 70 bilhões em novos investimentos, criar 4.500 empregos e arrecadar até R$ 20 bilhões para o governo.
Recentemente, o Relatório de Sustentabilidade da Petrobras destacou que a companhia planeja investir US$ 16,3 bilhões em projetos de redução de emissões nos próximos cinco anos, tendo já reduzido suas emissões em 40% desde 2015. Essas iniciativas não apenas prometem criar até 315 mil empregos, mas incluem medidas como a produção de diesel renovável e parcerias internacionais em descarbonização.
A Refina Brasil acredita que o êxito dessas iniciativas depende da criação de um ambiente mais equilibrado para o setor privado. Aumentar a capacidade de refino, avançar com os biocombustíveis e corrigir as distorções do mercado interno são passos cruciais para reduzir a vulnerabilidade externa e alcançar a verdadeira segurança energética no Brasil.
Tem alguma opinião sobre o futuro energético do Brasil? Compartilhe seus pensamentos nos comentários!