As contas do governo federal acumularam um rombo de R$ 83,8 bilhões até novembro, escancarando a tensão entre discurso político e realidade fiscal. Os dados, divulgados pelo Tesouro Nacional, revelam um cenário de desequilíbrio estrutural, marcado pela queda da arrecadação e pelo avanço contínuo das despesas públicas.
Somente em novembro, o déficit primário atingiu R$ 20,2 bilhões, o pior resultado para o mês desde 2023, evidenciando uma deterioração significativa em relação ao mesmo período do ano anterior, quando o saldo negativo foi de R$ 4,5 bilhões (em valores corrigidos pela inflação).
Apesar do quadro adverso, o governo sustenta que cumprirá a meta fiscal, amparado nas brechas do arcabouço fiscal, que permitem um déficit de até 0,25% do PIB, equivalente a R$ 31,3 bilhões, além da exclusão de R$ 44,5 bilhões em precatórios. Na prática, o limite tolerado chega a R$ 75,8 bilhões, sem caracterizar descumprimento formal da meta.
A estratégia oficial repousa sobre um superávit estimado de R$ 20 bilhões em dezembro, impulsionado principalmente pelos dividendos de estatais como Petrobras, BNDES e Caixa Econômica Federal. Segundo o secretário do Tesouro, Rogério Ceron, esse movimento permitirá encerrar o ano com um déficit ajustado de aproximadamente R$ 20,6 bilhões.
Os números, porém, revelam um alerta: em novembro, a receita líquida caiu 4,8% em termos reais, somando R$ 166,9 bilhões, enquanto as despesas totais cresceram 4%, alcançando R$ 187,1 bilhões. No acumulado do ano, as despesas (R$ 2,16 trilhões) seguem crescendo acima da arrecadação (R$ 2,08 trilhões), ampliando a pressão sobre o equilíbrio fiscal.
Especialistas veem com preocupação a flexibilização das regras fiscais, apontando que as exceções fragilizam a credibilidade do ajuste e transferem o custo político e econômico para os próximos anos.