
Criado inicialmente apenas como uma alternativa para transferências bancárias, o pix transformou completamente a relação dos brasileiros com o dinheiro. Em poucos anos, o sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central se tornou o meio de pagamento mais utilizado no país, superando dinheiro em espécie, cartões e transferências tradicionais. Atualmente, o sistema é utilizado por 170 milhões de pessoas, o equivalente a 80% da população brasileira. Só em janeiro deste ano, foram R$ 3 trilhões em transações financeiras envolvendo o pix.
No segundo semestre de 2025, o pix já respondia por 54,7% de todas as transações de pagamento realizadas no Brasil, com 42,9 bilhões de operações, número que representa um crescimento de 24,3% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Rafael Fontenele, contador, educador financeiro e professor da Estácio, explica que a expansão do pix alterou tanto a organização financeira de quem recebe quanto a de quem paga. Antes, profissionais autônomos e pequenos empreendedores frequentemente precisavam informar dados de diferentes contas, respeitar horários bancários ou lidar com prazos de compensação. “Hoje, uma única chave pode receber pagamentos de muitas pessoas, em qualquer horário. Isso simplificou a vida de quem vende, presta serviços ou trabalha por conta própria”, afirma.
No comércio, a praticidade também reduz obstáculos. O pagamento por QR Code ou chave Pix diminui a necessidade de troco, evita o manuseio de cédulas e moedas e permite que até operações de baixo valor sejam concluídas rapidamente. Dados do Banco Central mostram que o Pix é aceito por 98,7% dos estabelecimentos comerciais, atrás apenas do dinheiro em espécie, aceito por 99,1%.
LIMITE
A facilidade, porém, tem um efeito colateral possível: o gasto pode se tornar menos perceptível. Com o dinheiro físico, o consumidor vê a carteira esvaziar à medida que paga compras, transporte, lanches ou pequenas despesas do dia a dia. No pix, essas saídas acontecem em segundos e ficam espalhadas no extrato bancário, o que pode dificultar a percepção do total desembolsado e levar a surpresas financeiras desagradáveis no final do mês.
“Com o dinheiro em espécie, havia uma espécie de limite visual. A pessoa percebia quando as notas estavam acabando. No pix, você paga estacionamento, faz uma compra pequena, paga por um outro serviço rápido e pode não sentir o impacto imediato. Quando percebe, o saldo da conta já caiu muito”, explica Fontenele, que também frisa que a falta de controle financeiro não são, necessariamente, culpa do sistema instantâneo de pagamentos. “Não é o Pix que cria a falta de controle, mas a velocidade e a facilidade exigem que se acompanhe os gastos com mais rigor”, avalia.
A transformação ocorre em paralelo à redução do uso de dinheiro físico. Ainda segundo o Banco Central, a migração para instrumentos eletrônicos, como o Pix, substitui parte dos pagamentos em espécie e pode gerar economia de custos para a sociedade, associados à produção, transporte, armazenamento e segurança das cédulas e moedas.
Para o professor, a resposta não é voltar a evitar meios digitais, mas criar o hábito de registrar receitas e despesas para enxergar o orçamento como um todo. “Em uma folha de papel ou em uma planilha, a pessoa pode dividir as informações entre o que entra e o que sai. Nas despesas, vale anotar tanto as fixas, como aluguel, combustível, água e energia, quanto as variáveis, como lazer, alimentação fora de casa e entretenimento”, orienta.
O controle diário ou semanal do saldo bancário também ajuda a tornar visíveis os pagamentos que passam despercebidos na rotina. A recomendação é revisar extratos diariamente, identificar gastos recorrentes e comparar o total desembolsado com o planejamento do mês. “A inteligência financeira começa quando a pessoa entende para onde o dinheiro está indo. Sem acompanhar, é fácil gastar pequenas quantias repetidamente e só descobrir o impacto quando falta saldo para uma despesa essencial”, diz Fontenele.
Para Fontenele, esses números mostram que o desafio atual não é mais aprender a usar o recurso, mas usá-lo com consciência. “O Pix trouxe agilidade e facilitou a vida de consumidores e empreendedores. A tendência é que ele esteja cada vez mais presente e continue a transformar as nossas relações com o dinheiro. Por isso, planejamento financeiro deixou de ser apenas uma ferramenta para grandes decisões: ele também é necessário para cuidar das pequenas escolhas feitas todos os dias”, conclui.