InícioEditorialAssédio sexual em universidades leva mulheres a abandonarem carreira acadêmica

Assédio sexual em universidades leva mulheres a abandonarem carreira acadêmica

Quando um professor assedia sexualmente uma aluna, a vítima costuma encontrar nas universidades brasileiras dois obstáculos: o desincentivo da denúncia e a proteção do assediador pelo grupo ao qual ele pertence. Na falta de políticas institucionais específicas para lidar com o problema no ambiente acadêmico, professores assediam e, ao ser interpelados, respondem: “Ah, sempre foi assim, essas feministas tudo reclamam”. 

Relembre caso: Professor da Ufba é acusado de assédio sexual

A interjeição é apresentada por Valeska Zanello, pós-doutora em psicologia clínica e professora da Universidade de Brasília (UNB). Há 17 anos, Zanello pesquisa saúde mental e gênero. Em dezembro do ano passado, ela e a socióloga Tânia Mara Campos de Almeida organizaram a publicação do livro “Panoramas da violência contra mulheres nas universidades brasileiras e latino-americanas”, que pode ser baixado gratuitamente neste link. 

No Brasil, um trabalho dessa dimensão – 18 capítulos – sobre o tema é inédito. O assédio nas universidades acontece ao largo das estatísticas. 

“O que temos são professores muito bem preparados em termos de conhecimento, muito mau preparados para lidar com as relações pessoais, profissionais”, diz, ao se referir aos docentes que assediam alunas. 

Para ela, o assédio sexual nos ambientes acadêmicos é mais complexo por envolver uma relação entre mestre e aprendiz. A pesquisadora recorre ao dispositivo chamado de “transferência” por Freud para explicar as minúcias desse abuso. A aprendizagem só acontece pela mediação da transferência – em resumo, reviver, em uma relação, determinados protótipos infantis.

“Há uma vulnerabilização pelo lugar que o inconsciente da aluna coloca o professor. O que acontece é que, de um lado, os homens abusam dessa vulnerabilização. Para elas, fica misturado. Tem essa vivência da transferência, ao mesmo tempo que ser escolhida por esse homem tão endeusado deixa a aluna paralisada”

No capítulo co-escrito por Zanello, com Iara Richwin, também pós-doutora em psicologia clínica, tês histórias de assédio sexual sofridas por mulheres no ensino superior são analisadas.

As vítimas detalham seus sentimentos: “Qualquer passo em falso, ele pode me tirar tudo”, “Eu tinha medo, mas eu falei ‘não consigo mais!” e “Me culpabilizo”. Sem enxergar saídas, muitas delas abandonam a carreira acadêmica.

As mulheres são, hoje, 57% alunas do ensino superior brasileiro. Mas ainda ocupam menos da metade do cargo de chefia ou docência. A maioria das universidades brasileiras, explica Zanello, não criam manuais específicos para repreender o assédio ou ditar os limites da ação de um professor. 

O Ministério da Educação criou, há cinco meses, um programa voltado à prevenção do assédio sexual nas escolas públicas e privadas. As universidades não estão incluídas. 

“É possível oferecer um curso de formação para todos os professores que entrarem na universidade. Porque aí ele não vai poder dizer: ‘ah, sempre foi assim’. Não, ele foi informado do que a universidade toma como inaceitável”.

Na Austrália, ao serem contratados por algumas universidades, professores homens sã obrigados a passar por uma formação sobre gênero e violência de gênero. São informados sobre o que é assédio para que depois não se façam de desinformados. “Lá fora estão muito mais avançados”. 

Em entrevista ao CORREIO, Zanello explicou o cenário do assédio sexual nas universidades brasileiras, como professores homens agem e quais são os mecanismos por trás dos abusos. “Para ser um bom professor, não basta ser um grande conhecedor de um assunto”, diz. Confira íntegra: 

CORREIO: O que o assédio sexual no ambiente acadêmico tem de diferente daquele que acontece no mercado de trabalho?

Valeska Zanello: Depende de quais são os sujeitos envolvidos no assédio. Vamos ter outras possibilidades no ambiente acadêmico: além de professor, pode ser servidor. Mas eu, especificamente, estudei o assedio cometido por professores homens em relação a alunas. Mas o que tem de específico nesse assedio sexual? 

É que o motor dessa relação é a educação e aprendizagem. E o fenômeno que faz a mediação da aprendizagem é o que a psicanalise chama de transferência. A transferência, para Freud, é quando você revive, em uma relação, determinados protótipos, modelos, infantis.

“Em geral, a transferência ocorre com alguém que ocupa um papel de autoridade. Pode ser um médico, um professor, um analista. A diferença é que essa transferência é pré-requisito para que a transferência acontece”

Você não aprende de qualquer pessoa. Você aprende de alguém a quem sua inconsciência atribuiu o local de mestre. Isso vulnerabiliza muita a relação, independentemente do atravessamento de gênero. Por outro lado, venho pesquisando saúde mental e gênero há 17 anos. 

Trabalho com binarismo estratégico: tornar-se pessoa ainda se dá dentro da lógica binário do “tornar-se homem”, “tornar-se mulher”. As pedagogias afetivas que ocorrem nesse processo de subjetivação e socialização não só em relação ao comportamento, ocorrem também em relação as emoções.

O que faz a mediação do tornar-se a mulher é, sobretudo, os dispositivos amoroso e materno. E o tornar-se homem o da eficácia.

O que isso tem a ver com a transferência?

“Para as mulheres, o dispositivo amoroso implica na construção subjetiva de uma relação consigo mesma que é mediada por um homem que te escolha. Isso quer dizer que a gente terceiriza nossa autoestima. Criei, então, a metáfora da prateleira do amor.

E essa prateleira é marcada por um ideal estético: branco, jovem, magro, loiro. A chancela de sucesso da nossa mulheridade é ser escolhida. O botão de vulnerabilidade do dispositivo amoroso é se sentir escolhida. O fato da gente se subjetivar na prateleira faz a gente subjetivar numa rivalidade umas com as outras. 

 

Torna-se homem é mediado pelo dispositivo da eficácia, que se baseia em dois polos: a virilidade sexual e laborativa. A sexual é marcada pela ideia de que um homem bem-sucedido é um comedor sexual. Ele é na virilidade laborativa um trabalho e provedor, de preferência se ele puder acumular capital, riqueza, status. Mas também a questão da atividade sexual. 

Voltando para a transferência: eu falei que há uma vulnerabilização pelo lugar que o inconsciente da aluno coloca o professor. O que acontece, geralmente, é que de um lado, os homens professores ativam a virilidade sexual nessa transferência e abusam da vulnerabilização das alunas.

“Para as alunas, fica misturado, tem essa vivência da transferência, ao mesmo tempo que ser escolhida por esse homem tão endeusado – que não é o homem real – é o lugar que ele é colocado, deixa a aluna paralisada”

De um lado, ela sente o prazer narcísico de se sentir diferente, escolhida e reconhecida. Ela não está sendo reconhecida por um qualquer, mas aquele que o inconsciente colocou nos píncaros da gloria. É um espelho que devolve nessa autoestima que é terceirizada uma imagem que não desce.

É muito fácil abusar da transferência que ocorre nessa relação. Os efeitos são exatamente pela importância que essa relação tem muito mais deletérios. Muitas mulheres desistem de uma determinada da carreira acadêmica em função dessa violência tão naturalizada no meio acadêmico.

Quais têm sido os efeitos dessa prática na saúde mental das mulheres dentro do ambiente acadêmico?

Os efeitos são diversos. Falei do profissional, que é profissional e existencial, porque para muitas pessoas a escolha de carreira é uma realização de vida, sonho. Mas muitos efeitos na saúde mental, depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático. Muitas têm vergonha de compartilhar, porque aquele gozo narcísico é entendido como culpa, mas isso não tem nada ver. 

Quem precisa ser responsabilizado é o professor, cabe a ele se manter neutro nessa transferência, usar essa transferência a favor da discente. E não [usar a transferência] como lenha para sua própria fogueira narcísica.

“O que temos, geralmente, são professores muito bem preparados em termos de conhecimento, muito mau preparados para lidar com as relações pessoais, afetivas, profissionais. Muitos abusam desse lugar, ou seja, cometem uma grave infração ética”.

As recompensas/prazeres narcísicos, no caso do ambiente acadêmico, são um processo que dificultam as vítimas de denunciarem?

É muito mais difícil quando acontece no âmbito acadêmico porque tem algo que se realiza desse gatilho de vulnerabilidade do ser escolhida no dispositivo amoroso. Isso paralisa. Porque se teve algum tipo de gratificação, então, eu participei, eu sou culpada?

A gente está falando de uma relação marcada por uma assimetria, portanto é desigual. É muito mais difícil sair desse lugar. Mas comparando com a questão com analista: aquilo que se coloca para o professor e a analista, como receptáculo dessa transferência, o manejo da transferência é diferente.

E-book analisa assédio sexual nas universidades (Foto: Reprodução/Editora Appris)

O analista vai manejar de maneira a devolver para o paciente, no sentido do paciente reconhecer o que é dele, o que é colocado no outro. 

“No caso do aluno, não, o professor vai usar essa transferência para bem do próprio aluno, como motor da aprendizagem. O problema é quando o professor acredita que o lugar em que ele ê colocado tem a ver com ele, que ele é maravilhoso, um homem incrível, o pica das galáxias”.

Para ser um bom professor, não basta ser um grande conhecedor de um assunto, é preciso ter elaborado também algumas questões como homem, como pessoa.

Como as instituições têm se colocado diante dessas situações, há sequer políticas voltadas para essas vítimas em ambientes acadêmicos? 

De forma geral, o que as mulheres, alunas, contam, tanto da graduação quanto da pós, é que a há um desincentivo de fazer a denúncia. Já se tem o medo,  e aí a especificidade do meio acadêmico: às vezes só tem aquele professor, naquele conteúdo, de um grupo fechado e limitado no país. Existe uma diferença de distribuição de poder muito grande. Provavelmente, se ela denunciar, o grupo ao qual esse professor pertence, e isso é comum, vai proteger aquele professor.

“O sonho dela, de muitas fazer especialidade, e mestrado, doutorado, aquela porta também se fecha. Por isso, que também é tão pesado. É diferente de uma empresa que voce pode pedir demissão, entrar na justiça, e já é difícil. No caso da universidade, muitas vezes você vai ter que desistir de um projeto de vida”.

E aí muitas pessoas que ocupam cargos administrativos, como coordenadores, desestimulam [a denúncia de assédio sexual]. Muitas vezes, por uma cumplicidade entre pares, muitas vezes por reconhecerem esse dano que pode gerar na vida da aluna.

É muito importante que haja decisões e recursos institucionais para se combater esse tipo de violência, isso vai desse uma melhor preparação dos professores, mas também de pessoas que venham a ocupar esses cargos onde a denúncia chega.

Você citou a “cumplicidade pares”. No caso das mulheres que são professoras, vocês chegaram a identificar como era o assédio contra elas?

Eu fiz entrevista também com professoras, mas isso vai sair no próximo livro que vamos organizar. As professoras que entrevistei o assedio acontecia de forma um pouco diferente, acontecia mais o assédio moral, mas também baseado nas questões de gênero.

O assedio sexual das mulheres que entrevistei foram muito pouco incidentes, vinha as vezes como brincadeirinha, gracinha. Ou em relações de poder: com uma professora visitante, ou pós-doutorado, e ai num país estrangeiro.

Além da denúncia à própria instituição, é possível outro tipo de ação contra o assediador na universidade? 

Sim, uma coisa muito importante é a rede. Um dos fatores de proteção é ter pessoas que não coloquem em xeque a palavra dela. Amiga, apoio familiar. Para pessoas que não tem essa rede, uma rede de amigas, seria muito relevante a existência de coletivos feministas, onde as mulheres pudessem ser acolhidas nas suas falas, sem ser colocada em dúvida, e fortalecidas em levar adiante essas queixas.

Há vários exemplos sobre assédio cometidos por “mestres” (gurus espirituais, por exemplo). Por que essa figura pode ser tão central quando se fala em assédio?

Isso também tem a ver com a transferência. Mas com o guru, acho ainda mais complicado. Ela não vai ter parâmetro nenhum, o estrago, a manipulação pode ser ainda maior, porque não tem uma boa medida, tudo pode ser entendido ou reinterpretado pela espiritualidade. Muitos desses gurus utilizam a religião para isso.

Lembro das falas das mulheres que foram vitimas de João De Deus… muitas “terapias espirituais” eram estupros. 

“Agora, no caso da universidade, a gente vai ter uma coisa específica, fundamental, que é colocar os parâmetros do que é inaceitável. Isso já tem sido feito em países la fora, que já estão mais avançados nessa discussão”.

É possível criar regras, é possível ter um manual de boa conduta, é possível oferecer um curso de formação para todos os professores que entrarem na universidade. Porque aí ele não vai poder dizer: ‘ah, sempre foi assim, essas feministas tudo reclamam.’

Não, ele foi informado do que a universidade toma como inaceitável. E a punição, então, assim, temos varias possibilidades de punição, inclusive exoneração. 

O que essas universidades de fora têm feito?

Na Austrália, algumas universidades obrigam todos os professores contratados a fazerem um curso sobre gênero e violência de gênero. Isso vai ser usado na aplicação das regras da universidade. O professor não pode dizer, depois, que ele não sabia que ele assediou. Ah, que isso é normal, é uma paquera.

Você deixa claro o que é o assedio, os tipos de violência de gênero. Ele não vai poder alegar desconhecimento. Até como comumente ocorre com vários casos, inclusive de homens mais velho. A universidade garante desde a entrada a aplicação das regras, das leis.

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