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Dores e delícias da longevidade

Outro dia, falei em tom de brincadeira que quando morrer – só daqui a 40 anos, bem entendido – quero que minhas cinzas sejam separadas em três urnas e lançadas em três lugares diferentes. A primeira parte iria para Paris, a ser jogada naquele trecho em que a Île de la Cité divide o Sena como a proa de um navio. A segunda iria para Lisboa e as cinzas seriam arremessadas no Tejo, bem ao lado da Praça do Comércio. Por fim, gostaria de sentir a poeira do que fui ser tragada pela água morna da Baía de Todos-os-Santos, no Porto da Barra, a pelo menos uma centena de metros da praia.

Depois de alguns minutos, fiquei ruminando sozinho: 40 anos é bastante tempo, uma breve eternidade. Deixaria o mundo aos 92 anos, já alquebrado e um tanto senil. Em seguida, fiz um exercício: pensei nas pessoas com quem convivo – irmãos, primos, amigos, filha e tantas outras que não permitem que eu leve a vida de um ermitão. Quantas e quais delas estariam vivas nesse futuro remoto em que me despediria? Fiquei assombrado com as prováveis ausências e tratei de afastar o assunto da mente.

Mas, enquanto escrevo esta crônica, volto a pensar no mundo futuro dos meus 92 anos. O que me deixaria perplexo? Talvez a solidão avassaladora, que seria mitigada pela presença de minha filha (já então uma sessentona!). Ou a constatação de que não voltaria a lugares que amo, porque esses lugares pertenceriam ao passado. Ou quem sabe continuaria a me espantar e maravilhar com a decadência e o alvorecer das cidades, as pestes e as curas, a nossa violência atávica e a nossa capacidade de manifestar ternura. E, claro, a lua, sempre um assombro.

Também me impressionariam os avanços tecnológicos, que provavelmente serão enormes. Nada de internet, redes sociais ou smartphones de última geração. A julgar pelo Chat GPT, nova plataforma de inteligência artificial que começa a revolucionar o mercado de tecnologia e inovação, viveremos cercados de máquinas capazes de pensar por nós e até mesmo escrever romances, compor sinfonias ou dirigir longas-metragens. Um futuro distópico, portanto.

Creio que o mais determinante, nessa minha hipotética condição de ancião, será o grau de debilidade a que estarei entregue. Poderei estar aparentemente bem, enquanto um embrião de carcinoma, oculto em algum lugar que desconheço, se dedica ao desígnio fatal de desabrochar. Poderei estar surdo, incapaz de ouvir um Noturno de Chopin ou uma canção de Leonard Cohen. Ou cego, desprovido do prazer maior da leitura. Seria o pior dos mundos. Não, há mundos piores. A longevidade pode ser tanto uma dádiva quanto um massacre.

Borges, que atravessou a velhice no escuro, era implacável quando à longevidade: “É o horror de existir em um corpo humano cujas faculdades declinam, é uma insônia que se mede por décadas e não com ponteiros de aço, é o peso de mares e pirâmides, de antigas bibliotecas e dinastias, das auroras que Adão contemplou, é não ignorar que estou condenado a minha carne, a minha detestada voz, a meu nome, a uma rotina de lembranças, ao castelhano, que não sei manejar, à nostalgia do latim, que não sei, a querer mergulhar na morte e não poder mergulhar na morte, a ser e a continuar sendo.”

Na semana passada, fui ao aniversário de 95 anos de uma tia por quem nutro grande afeição. Não só por seu senso de humor peculiar, mas sobretudo pela sua bravura em viver, a despeito da perda progressiva da visão. Havia, nesse encontro, vários idosos em diferentes condições. Uns, altivos e sorridentes. Outros, debilitados por diferentes graus de senilidade. Mas o melhor é que muitos ali carregavam uma enorme vontade de permanecer no mundo, sorvendo das mais diversas maneiras o que ele tem de instigante e recompensador.

É assim que espero me sentir aos 92 anos. Poupado da dor e do sofrimento, o intelecto preservado, sorvendo as dores e delícias da longevidade, como na canção de Nei Lisboa: “Eu quero morrer/ Bem velhinho, assim sozinho/ Ali bebendo um vinho/ E olhando a bunda de alguém”. Mas pode ser que esse tempo passe de forma vertiginosa, como uma onda ou um espasmo. E de repente eu surpreenda a mim mesmo recordando com nostalgia os 52 anos que findaram ainda há pouco. Como costuma dizer minha mãe: “Passou tudo tão rápido”. E eu retruco: “Ainda está passando, mãe. A vida não acabou”.

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