Ancestralidade no concreto: cultura negra influencia a arquitetura na Bahia

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MEMÓRIA QUE HABITA

No Muncab, a história apresentada se conecta com o DNA do museu

Ana Cristina Pereira

30/11/2025 – 4:00 h

Gradil do Muncab , que é assinado pelo artista plástico J. Cunha

Gradil do Muncab, assinado pelo artista plástico J. Cunha

Quem chega ao Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), imerso no Centro Histórico, não pode deixar de se impressionar com o gradil de 22 metros do artista J. Cunha. Esta obra, batizada de Histórias de Ogum, não apenas protege; ela simboliza a rica e complexa presença negra no Brasil. Em um casarão neoclássico que um dia abrigou o antigo Prédio do Tesouro, o gradil se transforma em um elo de pertencimento e história, mostrando a vitalidade da cultura afro-brasileira.

Executado em ferro, um material associado ao orixá Ogum, o gradil narra a trajetória da presença negra no Brasil. J. Cunha, seu criador, ressalta que essa peça é mais do que uma estrutura; é uma narrativa visual que retrata desde a escravização até a contribuição tangível da cultura negra na arte, religião e gastronomia.

Além disso, este gradil evocam a habilidade dos ferreiros que chegaram ao Brasil nos navios negreiros, evidenciando que a arquitetura não se limita ao óbvio, mas é uma força motriz para a memória cultural.

J. Cunha é conhecido por criar gradis em outros lugares relevantes, como na Senzala do Barro Preto e em terreiros de candomblé. Cada uma dessas obras carrega consigo uma história que exige pesquisa e uma conexão profunda com a cultura negra, traduzindo informações em pensamentos gráficos.

A transformação da presença negra na arquitetura é vista como um desafio pelas novas gerações, segundo Zulu Araújo, arquiteto e produtor cultural. Ele destaca que a arquitetura tem sido, tradicionalmente, uma expressão do poder e da elite, raramente refletindo a rica contribuição negra, principalmente em um país que lidou com mais de 386 anos de escravização.

Zulu observa que o Brasil ainda abriga o “quarto da empregada” nos projetos arquitetônicos, um vestígio atual do colonialismo. Ele mesmo viveu essa exclusão, tendo sido um dos poucos alunos negros na sua turma de arquitetura, e agora se orgulha de trabalhar em projetos que realmente atendem às comunidades negras, como a reforma do Conjunto Habitacional Vila Nova Esperança.

Atualmente, a situação nas faculdades de arquitetura reflete uma mudança, com 40% de alunos negros, um aumento significativo que reflete o esforço das novas gerações em mudar a narrativa. No entanto, Zulu observa que ainda é pouco, mas o comprometimento das novas gerações de arquitetos e designers traz esperança para o futuro.

Essa transformação é sustentada também por iniciativas acadêmicas, como as pesquisas desenvolvidas pelos professores Maria Estela Ramos e Fábio Velame. Ambos se dedicam a temas relacionados às cidades afro-diaspóricas e têm orientado alunos na busca por um entendimento mais profundo das influências negras na arquitetura.

O grupo EntiCidades, liderado por Fábio, é um exemplo prático de como a academia pode refletir a diversidade crescente, estudando as relações étnico-raciais e tornando mais plural a arquitetura. Essa mudança já é visível, com um conteúdo menos eurocentrado e mais inclusivo.

Do ponto de vista social, Maria Estela traz sua experiência, refletindo sobre a importância do conhecimento da cultura negra na arquitetura. Seus projetos buscam integrar materiais sustentáveis e técnicas tradicionais de origem africana, mostrando que o futuro da arquitetura pode e deve ser ancestral.

Com uma proposta afrocentrada, o arquiteto Éraldi Peterson e sua equipe jovem no Studio Arandela estão mudando a face do urbanismo. Eles se especializam em projetos de impacto socioambiental, mostrando que a nova geração está atenta às questões sociais e ambientais.

A revolução silenciosa que se dá no campo da arquitetura não é apenas sobre estruturas e estilos, mas sobre a memória, a cultura e a identidade. Você, leitor, está pronto para se engajar nessa transformação? Compartilhe suas opiniões e contribuições nos comentários abaixo!

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