A proposta de lei antifacções, vislumbrada como a principal estratégia do governo federal para erradicar o crime organizado, despertou uma onda de apreensão dentro das próprias forças de segurança. Um relatório apresentado na Câmara pelo deputado Guilherme Derrite (PP-SP) sugere medidas que podem restringir severamente o papel da Polícia Federal (PF) em operações contra facções criminosas, exatamente o tipo de organização que a legislação se propõe a combater.
O trecho mais alarmante refere-se à limitação da atuação da PF nas investigações sobre facções, delegando parte dessa responsabilidade às polícias civis estaduais. Assim, a PF se limitaria a agir apenas em situações com repercussão interestadual ou internacional, ou quando convocada pelo Ministério da Justiça a pedido de governadores, uma mudança que pode comprometer a autonomia operacional da corporação.
Embora o relator tenha amenizado algumas disposições, membros da PF permanecem preocupados com a possibilidade de ingerência política e perda de independência. Atualmente, a Constituição autoriza a PF a investigar crimes que extrapolam fronteiras estaduais ou que envolvem bens da União, além de combater o tráfico de drogas e o contrabando.

A Polícia Federal reconhecida como a melhor preparada do país, tem um histórico impressionante de desmantelar redes criminosas complexas e prender líderes de facções que aterrorizaram comunidades. A ansiedade em torno dessas mudanças deve-se ao potencial para criar barreiras burocráticas que favoreçam exatamente aqueles que a proposta pretende desarticular.
O debate sobre a nova legislação surgiu em um contexto de crescente pressão por respostas à violência. O impulso para a proposta seguiu-se a uma megaoperação contra o Comando Vermelho (CV) no Rio de Janeiro, que resultou em 121 mortes. O endurecimento das penas para líderes de facções é um dos principais pilares do projeto, elaborado após discussões no Ministério da Justiça e aprovado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Para especialistas da segurança pública, qualquer tentativa de restringir a autonomia da PF poderia beneficiar os mesmos grupos que a proposta visa combater. Limitar a atuação de uma instituição com capacidade técnica e abrangência nacional é, segundo analistas, favorável ao crime organizado e a interesses políticos que poderiam estar sob investigação.
Consequências para a Investigação de Fraudes nos Combustíveis
As operações da PF investigando fraudes no setor de combustíveis poderiam ter sido inviabilizadas se a nova redação da lei já estivesse em vigor. Um dos esquemas em apuração abrangeria mais de mil postos em dez estados e movimentações financeiras de cerca de R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. Essa complexidade demonstra a importância das investigações coordenadas pela PF.
A Operação Carbono Oculto, que desmantelou parte desse esquema, possibilitou novas ações, como a Operação Primus, que detectou mais de 200 postos ligados a fraudes. No Nordeste, investigações revelaram ligações entre redes de postos e distribuidoras associadas a facções, destacando a necessidade da coordenação nacional e da autonomia da PF para uma efetiva resposta ao crime.

O Diretor-Geral da PF, Andrei Rodrigues, criticou o projeto, afirmando que, mesmo com alterações, a lei limita a atuação da instituição e contraria a Constituição. Em declarações à GloboNews, ele expressou que, se a proposta for aprovada, a PF atuaria apenas quando solicitada por autoridades estaduais, além de ter que informar sobre investigações envolvendo figuras políticas locais.
Andrei Rodrigues afirmou que essas restrições podem favorecer aqueles que se beneficiam do enfraquecimento da PF e alertou que interessa a quem comete crimes que a Polícia Federal não tenha a liberdade de agir sem avisos prévios.
A discussão em torno da lei antifacções não se encerra aqui. Qual é a sua opinião sobre os impactos que essas mudanças podem ter no combate ao crime organizado? Participe nos comentários e compartilhe suas reflexões!