As águas do Rio Envira, no Acre, conectam a floresta ao litoral baiano através de um chamado espiritual. As jovens Huni Kuins, Shãkuany, Mukani e Rãni, não estão apenas em uma viagem, mas entregando à humanidade a força do feminino e a importância da reconexão com a terra. Sua missão transcende o individual e se transforma em um coletivismo que, ao invés de conflitos, busca uma união respeitosa com a natureza.
O Chamado da Ancestralidade
A decisão de partir da Aldeia Me Nia Ibu Isaka não foi trivial; surgiu durante a consagração do Nixi Pãe (ayahuasca), dando início a uma jornada guiada pela ancestralidade. “A gente consagrou a medicina e eu recebi esse chamado. Não sou só, minha família e irmãs também precisam desse conhecimento”, revela Shãkuany, apresentando a formação do grupo Siri Yka Ãibu Keneya, cuja simbologia é rica em significados.
O nome representa o Txana, um pássaro sagrado lembrando a força da mulher e a importância do conhecimento coletivo. Assim, suas vozes, unidas, refletem um feminismo que não busca rivalidade mas sim equilíbrio.
Feminismo Orgânico e Comunidade
Em contraste com as lutas urbanas por espaço, na Aldeia Me Nia Ibu Isaka, o papel feminino é natural e essencial. Shãkuany observa: “Na minha comunidade não vejo machismo. Trazemos essa consciência e inspiramos outros irmãos.” Enquanto isso, Rãni explica que na maternidade, o cuidado é compartilhado, permitindo que as mulheres mantenham sua liberdade sem abdicar dos filhos.
“Ser mãe aqui é ensinar em comunidade, integrando a vida e o trabalho. Eles aprendem respeitando o próximo”, afirma Rãni, mostrando como isso também reflete na união familiar frente aos desafios.

Por outro lado, a vivência em Salvador fez as jovens refletirem sobre as diferenças entre a floresta e a urbanidade. Mukani expressou sentir-se tranquila na natureza, enquanto Rãni percebeu a dependência do consumo na cidade, ressaltando a necessidade de resgatar práticas sustentáveis.
A Troca de Saberes e a Autonomia
Além de conhecer novos ambientes, o trio absorveu técnicas de saboaria e produção de incensos naturais, uma troca que fortalece a autonomia. Rãni destaca: “Aprendemos a fazer nosso sabão com ervas da floresta. Levar esse conhecimento para casa é uma honra.” O aprendizado é um impulso vital nas relações interpessoais, privilegiando o coletivo sobre o individual.
Finalizando sua experiência, Shãkuany encoraja todas as mulheres a não temerem seus próprios caminhos, sugerindo que a verdadeira força vem da autoexploração e da conexão com a natureza. A mensagem é clara: a resistência e a cura estão presentes na união entre o ser, o outro e o meio ambiente, criando um futuro mais harmonioso.