Internos são resgatados de clínica onde eram torturados, afogados e chicoteados na RMS

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Quartos fechados com cadeados pelo lado de fora. Sala de “tortura”, cercas com fios eletrificados sobre os telhados para impedir fugas e pacientes com lesões pelo corpo provocadas por agressões. Além disso, relatos de espancamentos, afogamentos, trabalhos forçados e pessoas dopadas com medicamentos controlados.

Foi esse o cenário encontrado pela Polícia Civil da Bahia, na manhã desta quarta-feira, 22, durante operação realizada na clínica de reabilitação destinada a dependentes químicos Terra Santa Videira, localizada na zona rural de Candeias, na Região Metropolitana de Salvador. A clínica já vinha sendo investigada pelas mortes de Iago e Geovane.

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Na operação, 39 internos foram resgatados em um cenário descrito pela Polícia Civil como de graves violações de direitos. Segundo as investigações, eles eram mantidos em situação de cárcere privado. Um dos pacientes afirmou que chegou a acreditar que morreria afogado dentro da clínica.

“Eu fui agredido por umas três horas de relógio com pedaço de madeira, com pedaço de bambu, barra de ferro. Fiquei acamado, amarrado, me enforcaram dentro de um lago que tem aqui no fundo. Bebi mais de cinco litros de água, pensei que ia morrer afogado. Me tiraram quase morto e me trouxeram aqui para cima. Me forçavam a trabalhar de cinco da manhã até oito da noite e, se eu não trabalhasse, apanhava.”, revelou uma das vítimas resgatadas, em depoimento ao qual o portal A TARDE teve acesso.

Gerente preso

O gerente da unidade foi preso em flagrante. Segundo a Polícia Civil, Charles Vinicius foi encontrado dormindo nas dependências da unidade e foi autuado pelos crimes de tortura e maus-tratos. Ele é apontado como braço direito do proprietário da instituição, que ainda não foi preso.

Segundo o delegado Marcos Laranjeira, titular da 20ª Delegacia Territorial (DT/Candeias), os policiais localizaram pacientes vivendo em condições degradantes, alguns deles com lesões físicas recentes.

“Hoje a Polícia Civil da Bahia, por meio da 20ª Delegacia Territorial de Candeias e do Departamento de Polícia Metropolitana (Depom), cumpriu mandados de busca e apreensão contra os responsáveis por uma clínica de reabilitação para dependentes químicos. Durante a incursão na clínica, localizamos 39 internos em situações degradantes, apresentando lesões físicas que caracterizam maus-tratos e tortura. Durante a ação, o gerente da clínica foi localizado e preso em flagrante pelos crimes de tortura e maus-tratos. Ele foi conduzido à unidade policial, onde o auto de prisão em flagrante foi lavrado”.

Ainda conforme o delegado, os pacientes foram formalmente ouvidos. Aqueles que apresentavam marcas recentes de agressões passaram por exames de corpo de delito no Departamento de Polícia Técnica (DPT) de Santo Amaro. O material apreendido durante a operação também será submetido à perícia.

“As diligências foram realizadas nas cidades de Candeias, Camaçari e também em um imóvel localizado em Salvador. Durante a operação, foram apreendidos aparelhos celulares, computadores, notebooks e outros materiais considerados importantes para o andamento das investigações. Todo o material apreendido será submetido à perícia e analisado pelo setor de inteligência da Polícia Civil para auxiliar na produção de provas e fortalecer o inquérito policial”, afirmou o delegado.

Cenário de violência extrema

Dentro da unidade, os investigadores encontraram quartos trancados pelo lado de fora com cadeados. Os telhados possuíam cercas com fios eletrificados que, segundo a investigação, eram utilizadas para impedir fugas.

Durante a operação, os policiais também ouviram relatos de pacientes que afirmaram ter sido dopados com medicamentos controlados para reduzir a capacidade de reação e facilitar o controle dos internos.

Depoimentos colhidos durante a operação indicam que internos eram submetidos:

  • agressões físicas;
  • torturas;
  • trabalhos forçados;
  • privação da liberdade;
  • administração irregular de medicamentos controlados.

“Era um sufoco, uma humilhação de vida. Éramos obrigados a fazer trabalhos forçados e, se não fizéssemos, apanhávamos. Açoitados com vara, chicote e palmatória”, disse um interno. Outro chegou a dizer que era obrigado a comer as próprias fezes.

Quarto do “amor”

Os relatos também apontam a existência de um espaço conhecido como “quartinho do amor”, onde pacientes afirmam ter sido colocados de cabeça para baixo e agredidos.

“As pessoas eram penduradas de cabeça para baixo e agredidas. Enquanto eu estava amarrado pelos pés, outras pessoas ficavam esperando a vez delas”.

Esse lugar era chamado de quartinho do amor, mas de amor não tinha nada, Na verdade, era uma sala de tortura Interno resgatado

O mesmo interno afirma que pacientes permaneciam sem banho, eram medicados sem prescrição e, em alguns casos, deixados nus em um formigueiro.

Outra área investigada fica nos fundos da clínica, próxima a um lago, onde, segundo os depoimentos, internos eram levados para sofrer sessões de tortura, incluindo supostos afogamentos.

“As equipes policiais também realizaram buscas em áreas de mata próximas à clínica após o recebimento de relatos de que internos eram obrigados a escavar buracos no terreno, sob a justificativa de que seriam utilizados para o descarte de lixo. A informação é apurada no curso das investigações, que buscam esclarecer a finalidade desses locais e eventual relação com outros crimes”, diz o delegado.

Mortes desencadearam operação

A operação foi deflagrada no âmbito das investigações sobre o homicídio de Iago Marques Formiga, de 33 anos, motorista da clínica que desapareceu no dia 9 de maio e teve o corpo localizado carbonizado em uma área de vegetação no município de Camaçari.

A ação também foi intensificada após a apuração da morte de Geovane Santana Lopes, de 31 anos, que morreu em maio deste ano em decorrência de queimaduras sofridas no interior da clínica, em dezembro de 2025.

Imagem ilustrativa da imagem Internos são resgatados de clínica onde eram torturados, afogados e chicoteados na RMS
Foto: Geovane, ex-interno morto

Investigação ganha novos rumos

Além dos crimes de tortura, maus-tratos, cárcere privado e lesão corporal, a Polícia Civil agora investiga se a clínica foi utilizada para outros delitos.

Segundo o delegado Marcos Laranjeira, já há indícios da participação do proprietário nos crimes investigados.

“As investigações já apontam indícios de participação do proprietário nos crimes de maus-tratos e tortura praticados contra os internos. Também apuramos denúncias de que a clínica possa ter sido utilizada para a execução de vítimas e investigamos a possível participação dos envolvidos em uma organização criminosa.”

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