Césio-137: a trajetória de Leide das Neves, ícone da tragédia nuclear

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Leide das Neves Ferreira, menina que se tornou símbolo do acidente radiológico com Césio-137, ocorrido em Goiânia, em 1987 - Metrópoles

Quase quatro décadas após a tragédia do césio-137 em Goiânia, a dor da perda de Leide das Neves Ferreira ainda ressoa na vida de sua mãe, Lourdes, de 74 anos. A morte de Leide, que tinha apenas seis anos, transformou-a no símbolo de um acidente que marcou a cidade e deixou cicatrizes profundas.

A Trágica Descoberta do Césio-137

O pesadelo começou em 13 de setembro de 1987, quando dois catadores encontraram uma cápsula de césio-137 em uma clínica abandonada. Após vendê-la a um ferro-velho, a substância começou a se espalhar, desencadeando um dos maiores acidentes radiológicos do mundo. A curiosidade de um dos irmãos dos catadores, Ivo Ferreira, levou Leide a brincar com o material. “O que mais me marcou foi o brilho azul”, relembra Lourdes.

No dia 24 de setembro, Leide e sua tia Luiza foram contaminadas. O impacto foi imediato, e, em questão de minutos, Leide começou a vomitar. Com sintomas cada vez mais graves e uma transferência para o Hospital Naval Marcílio Dias no Rio de Janeiro, Lourdes presenciou a última vez que viu sua filha.

A Morte e o Preconceito

Leide faleceu em 23 de outubro, vítima de síndrome aguda da radiação, levando também outras vítimas. No enterro, a dor foi exacerbada por manifestantes que tentaram impedir o sepultamento devido ao medo da contaminação. Lourdes, angustiada, só pôde se despedir da filha após a intervenção da primeira-dama de Goiás, que clamou por respeito e humanidade.

A tragédia não apenas destruiu a vida de Leide, mas também de sua família. O governo interveio, demolindo sua casa e confiscando os pertences da família, que se tornaram rejeitos radioativos. “As fotos da Leide eram tudo o que eu queria salvar”, desabafa Lourdes, que guarda apenas algumas recordações da filha.

Após a morte de Leide, Lourdes seguiu sua vida entre dores e lutos, cuidando do marido, que também faleceu anos depois. Contudo, ela continua a lutar para que a memória da filha e as condições da comunidade não sejam esquecidas.

Atualmente, as pensões oferecidas pelo governo, consideradas insuficientes, ecoam o descaso com as vítimas. Um projeto de lei em andamento prevê reajustes, mas a aprovação é incerta. A luta de Lourdes e de outras vítimas é para garantir uma vida digna e honrar a memória de quem perderam.

“Meu desejo é que nunca esqueçam Leide e que pessoas como eu tenham um final de vida digno”, conclui Lourdes, que ainda carrega a esperança de um futuro melhor.

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