Empresas de menor porte adiaram pedidos, encolheram prazos ou reduziram portfólios a fim de acomodar o custo financeiro
Juros altos e crédito restrito continuam a pressionar o caixa e a competitividade do pequeno exportador brasileiro, situação que pode causar receio quanto a realizar investimentos fora do Brasil.
O Boletim Focus, do Banco Central, divulgado em 2 de março, manteve a projeção da taxa Selic para o fim de 2026 em 12% ao ano. Embora sinalize um início de flexibilização monetária após um período no patamar de 15%, o percentual pressiona o capital de giro, encarecendo operações de pré e pós‑embarque.
O alívio do custo ainda não chegou às micro e pequenas empresas exportadoras. Na prática, foram observados adiamento de pedidos, encurtamento de prazos e redução de portfólio a fim de acomodar o custo financeiro, sobretudo em setores como alimentos, bebidas, calçados, têxteis e móveis.
Com o cenário marcado por juros altos, o crédito para micro e pequenas empresas que vendem ao exterior segue restrito, caro e concentrado.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, as exportações do Brasil bateram recorde histórico em 2025, somando US$ 348,7 bilhões. O resultado superou em US$ 9 bilhões o recorde anterior, registro de 2023.
“O peso das pequenas empresas na exportação de 2025, segundo dados históricos, deve indicar que cerca de quatro em cada dez empresas exportadoras são pequenos negócios. O desafio continua sendo aumentar o valor exportado”, aponta o analista de negócios do Sebrae Nacional, Gustavo Reis.
Para driblar esse desafio, é preciso compreender que, além de juros altos e crédito restrito, outros fatores fazem parte de um conjunto de barreiras que comprimem margens e reduzem a competitividade.
Cenário macroeconômico e financeiro
Entre os desafios para o pequeno exportador está o cenário macroeconômico e financeiro. Juros altos, crédito restrito e incertezas sobre o cenário externo impactam diretamente as atividades.
Diversificar as fontes de financiamento e profissionalizar a gestão financeira são alternativas para superar essas dificuldades. Isso passa pela compreensão sobre o que é conta PJ e como ela pode facilitar o controle e o acesso a serviços bancários.
“Em algumas situações, os empréstimos podem ser necessários para garantir o funcionamento da empresa ou a realização de projetos específicos. Entretanto, se não planejados, podem levar ao endividamento e à falência”, alerta a Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin).
Volatilidade cambial
A volatilidade cambial também impacta os pequenos exportadores. Com a oscilação do dólar, provocada pela instabilidade fiscal, a receita prevista muda entre a assinatura do pedido e o recebimento, o que prejudica margens e atrapalha a precificação.
Para reduzir esta exposição, os pequenos exportadores costumam diminuir lotes e prazos, mas perdem escala e pagam mais caro pelo capital de giro. Segundo o especialista em estratégia comercial Vicente Zotti, em um mercado de margens estreitas, segurar o preço é diferencial, justamente onde a volatilidade mais expõe os pequenos exportadores.
Logística e infraestrutura
Outros desafios são a logística e a infraestrutura. A escolha do frete, a negociação de prazos, a consolidação de cargas e o rastreamento seguro dos embarques tornaram-se tarefas críticas. Nesse contexto, a digitalização deixou de ser tendência e virou necessidade, assim como o trabalho de equipe especializada.
A dependência do transporte rodoviário é outro desafio que envolve as questões logísticas. Estradas em condições precárias, congestionamentos em acessos portuários e baixa oferta de ferrovias elevam o custo do frete, aumentam o risco de avarias e roubos e tornam os prazos menos confiáveis. Com combustível e pedágios voláteis, além de picos sazonais de chuvas que interrompem rotas, o orçamento logístico fica mais apertado e o preço final perde competitividade.
“A participação do Brasil no comércio internacional global fica entre 1 e 1,5%, no máximo. Temos que evoluir a nossa competitividade. É preciso investir no preparo do produtor e em um conjunto de ações institucionais e políticas facilitadoras”, afirma o professor de MBAs de Internacionalização e Negócios Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, João Men.
Aumento de tarifas e barreiras comerciais
Diante do aumento das tarifas de importação e das barreiras comerciais, pequenos exportadores brasileiros encaram um cenário de custos crescentes e regras mais duras para acessar mercados. O resultado é pressão sobre margens, prazos mais longos de homologação e maior necessidade de inteligência regulatória, assim como redefinição de cadeias e parcerias locais para driblar barreiras e cumprir regras de origem.
Para manter margem e competitividade, os exportadores precisam revisar contratos, repensar preços e cláusulas de flexibilidade, além de buscar mercados alternativos, onde as barreiras sejam menores ou onde protocolos de acordos comerciais favoreçam o acesso. A
A iniciativa se apresenta como uma oportunidade imediata de escoamento para os produtores afetados, de acordo com estudo desenvolvido pelo Sebrae.
Insegurança digital
A alta ocorrência de golpes digitais precisa estar no foco de pequenos negócios, que devem investir em cibersegurança e proteção de dados. Entre as medidas a serem adotadas para garantir a segurança digital, estão autenticação multifator, controle de acesso por níveis, criptografia, backups testados e monitoramento contínuo, além de treinar as equipes para criar uma cultura de proteção de dados alinhada à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Ao mesmo tempo, a Inteligência Artificial e a automação deixaram de ser opcionais, tendo em vista que pequenas empresas que não automatizam processos manuais perderão eficiência para concorrentes que utilizam dados para planejamento. “Esses instrumentos são fundamentais para que os pequenos empresários mantenham longevidade em seu negócio, para fazer escala e abrir novas possibilidades”, afirma o presidente do Sebrae Nacional, Décio Lima.
Sustentabilidade
No caso de importações de ferro e aço, alumínio, cimento, fertilizantes, produtos derivados de hidrogênio e eletricidade, é preciso estar atento à sustentabilidade e às exigências ambientais. Ainda que as importações do Brasil à União Europeia tenham foco no mercado agrícola e de matérias-primas, o que significa impacto reduzido, deve-se compreender o cenário.
Um dos pontos é que a União Europeia passará a cobrar por emissões de gases de efeito estufa embutidas em produtos importados. Com isso, as empresas precisarão auditar e reduzir as taxas de carbono para manter acesso aos mercados europeus. Além disso, setores como agronegócio e manufatura enfrentarão maior pressão por metas ambientais rastreáveis.
“Se o ambiente regulatório europeu é rigoroso, ele também abre espaço para que o Brasil transforme conformidade técnica em ativo de reputação. Temas como clima, desmatamento, rastreabilidade e bem-estar animal fazem parte do debate público no bloco e influenciam decisões de compra”, destaca o secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), Luis Rua.