30 agosto, 2025
sábado, 30 agosto, 2025

A união que leva comida à mesa de comunidades carentes

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menina estendendo roupa no varal

No coração do Sol Nascente, que já foi a maior favela do Brasil, um aroma característico permeia as ruas no fim da manhã. O cheiro de alho e cebola refogados anuncia que um almoço nutritivo está sendo preparado na Unidade de Desenvolvimento Social e Humano. À frente das panelas, Valdineia da Conceição Rodrigues, mãe e voluntária dedicada, não apenas cozinha; ela é uma guardiã de uma rotina que não só alimenta, mas também resgata a dignidade das pessoas da comunidade.

Valdineia tem uma visão clara: “A única coisa que alimenta mesmo é a comida de verdade. O pacote ultraprocessado só engana a fome por um tempo.” Sua certeza revela a profunda conexão que ela tem com aqueles que chegam, muitas vezes sem saber o que colocar na mesa em casa. “O que alimenta é o prato preparado com cuidado”, diz ela, com a firmeza de quem já conheceu a angústia da falta de alimento.

Na cozinha do Sol Nascente, o compartilhamento é a essência. Os ingredientes vêm do Banco de Alimentos, de restaurantes parceiros e de vizinhos generosos que doam o que podem. Enquanto serve colheradas de caldo fumegante, Valdineia repete: “Comer bem é direito, não luxo.” E cada prato servido vai além da nutrição; é um gesto de afeto, um fio de conversa e um meio de cidadania.

A cozinha se transforma em um espaço de acolhimento, onde políticas públicas se encontram com as necessidades da comunidade. Valdineia organiza não apenas refeições, mas também transcende sua função ao fornecer informações sobre cursos e programas sociais. É um lugar onde a dignidade se renova através da comida e da solidariedade.

No Sol Nascente, a infância também carrega aprendizados de resistência

Luana Santana Araújo, uma mãe solo de três filhos e moradora do Sol Nascente, observa tudo de perto. Sua história é marcada pela fome, pelas noites sem dormir pensando no que poderia servir a seus filhos. “Eu já passei fome com meus filhos, e foi graças ao Bolsa Família que tive um alívio”, conta. Hoje, Luana vê nas cozinhas solidárias uma luz na escuridão do desespero, uma rede de apoio que transforma suas dificuldades em esperança.

As histórias de Valdineia e Luana são emblemáticas, simbolizando a força da Estratégia Alimenta Cidades. Em 2024, 410 cozinhas solidárias foram habilitadas em todo o país, muitas instaladas em locais como o Sol Nascente, onde a insegurança alimentar desafia famílias diariamente. Essas cozinhas fazem parte de uma rede mais ampla que inclui compras públicas de alimentos da agricultura familiar, bancos de alimentos e hortas urbanas.

Perto da cozinha, uma horta comunitária prospera, rodeada por casas de tijolo cru. Filas de couve e tomates amadurecendo no pé ensinam às crianças que o alimento vem da terra, e não de uma embalagem. Desde 2018, 231 hortas urbanas foram implantadas no Brasil, promovendo acesso a alimentos frescos e gerando renda nas comunidades carentes.

Valdineia não enfrenta essa luta sozinha. Ela é parte de um movimento coletivo: “Aqui tem restaurante que doa, vizinho que traz verdura. A gente faz render”, exalta, reconhecendo o papel crucial das mulheres que organizam cozinhas e mobilizam seus vizinhos. Elas são as verdadeiras protagonistas na batalha contra a fome, desenvolvendo políticas públicas no chão da favela.

mulher lavando verduras na pia
Entre panelas e hortaliças, voluntária garante que a comunidade do Sol Nascente tenha acesso à comida de verdade

À medida que o dia chega ao fim, a cozinha solidária fecha suas portas, mas deixa um rastro de esperança na comunidade. Luana sai com os filhos de barriga cheia, confortada pela certeza de que não está sozinha. Valdineia, após um dia inteiro de trabalho, já se prepara para recomeçar no dia seguinte.

Assim, a luta contra a fome continua sendo um esforço coletivo e diário. O Brasil pode ter saído do Mapa da Fome em 2024, mas essa conquista só se sustenta quando se reflete em comunidades como o Sol Nascente. “Comida de verdade precisa de tempo, de gente e de política”, resume Valdineia. Nesta intersecção entre habilidade culinária, amor e gestão pública, um futuro mais justo começa a ser cozinhado.

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