Nos últimos 15 meses, quatro bandas de rock, criadas recentemente e dedicadas apenas a tocar covers, receberam mais de R$ 2,3 milhões em cachês da prefeitura de São Paulo. Uma dessas bandas, a MotorRockBr, formada por músicos desconhecidos, reportou ter recebido R$ 828 mil para 30 apresentações, sendo contratada como “artista consagrado”, mesmo sem lançamentos ou grande presença nas redes sociais.
Apesar de terem apenas 333 seguidores, as apresentações da MotorRockBr são pagas a R$ 30 mil cada, um valor significativamente acima da tabela padrão adotada pela Secretaria Municipal de Cultura (SMC). Para justificar esses cachês altos, a banda apresenta notas de shows em eventos corporativos organizados por agências ligadas ao produtor Fabrício Raveli.
Além da MotorRockBr, outras três bandas contratadas por Raveli foram apresentadas 73 vezes e somaram mais de R$ 2,3 milhões em cachês. Todas as bandas foram criadas entre 2023 e 2024 e não têm registros de apresentações para outros entes públicos além da prefeitura. Os irmãos Raveli, que têm conexões com figura do Tribunal de Contas do Município, eram frequentemente associados a essas contratações. Após uma denúncia, um inquérito foi aberto para investigar as práticas da prefeitura.
Essas bandas operam em um circuito fechado de eventos organizados pelo próprio Fabrício, que recebe pagamento por palestras, além de ser o responsável pela estrutura dos eventos. Recentemente, as operações foram questionadas pela vereadora Luana Santos, que destacou a falta de comprovações visando a notoriedade das bandas, que apenas apresentavam material promocional próprio como evidência de “consagração”.
Outro ponto crítico é que as bandas têm suas apresentações pagas pela prefeitura e, para serem escaladas, devem comparecer a reuniões organizadas pela associação de Fabrício. Isso levanta questões sobre a legitimidade da escolha desses grupos. Em muitos casos, os cachês pagos são consideravelmente mais altos do que o valor médio do mercado, que está saturado com bandas e tem baixo público.
O cenário se complica com a forma como as bandas se justificam para obter cachês elevados, apresentando notas fiscais de shows em locais que não correspondem ao valor prorrogado. O caso da banda Névula ilustra essa questão, tendo recebido R$ 30 mil através de notas de shows pessoais e de empresas ligadas a Raveli.
Embora a prefeitura afirme que as escolhas dos artistas contratados sejam feitas via critérios técnicos e sem influência externa, as evidências levantadas pelo Tribunal de Contas sugerem falhas na comprovação do sucesso dessas bandas. A análise também revelou que o processo não atende a normas que exigem transparência nas contratações artísticas.
A situação evidencia um conflito de interesse e a necessidade de mais transparência sobre a utilização de recursos públicos em projetos culturais. É essencial que o público se mantenha informado e questionador sobre como os recursos da cultura são aplicados, especialmente em um cenário no qual muitos talentos emergentes lutam por uma chance. Quais são suas opiniões sobre este assunto? Deixe seu comentário.