Preconceito e falta de preparo profissional afetam diagnósticos e adesão à terapia oncológica
O acesso à saúde é uma batalha diária para a população LGBTQIAPN+, que enfrenta não apenas preconceitos, mas também desafios na obtenção de cuidados essenciais, como prevenção e tratamento de câncer. Estudos recentes revelam que a combinação de discriminação e a formação inadequada de profissionais de saúde contribui para diagnósticos tardios e baixa adesão ao tratamento oncológico entre estas pessoas.
Uma pesquisa publicada em 2025 na Revista Brasileira de Cancerologia revelou como a formação dos profissionais de saúde, geralmente superficial em temas relacionados à comunidade LGBTQIAPN+, impacta negativamente no atendimento. O enfermeiro Cremilson de Paula Silva, autor do estudo, destacou a falta de experiências práticas que promovam um cuidado inclusivo e ético.
A desconexão entre pacientes e médicos é alarmante, especialmente em casos de câncer. Segundo a oncologista Ana Paula Garcia Cardoso, o medo da discriminação leva muitas pessoas a evitarem consultas, aumentando a probabilidade de diagnósticos em estágios avançados. Um estudo de 2023 na JAMA Oncology mostrou que mulheres lésbicas e homens transgêneros levam em média 64 dias para serem diagnosticados com câncer de mama, enquanto pacientes cisheteronormativos demoram apenas 34 dias.
Outra pesquisa brasileira, com 6.700 participantes acima dos 50 anos, apontou que mulheres lésbicas realizam mamografias com uma frequência de apenas 40%, em contraste com 74% entre mulheres heterossexuais. Já homens trans que mantêm o colo do útero ainda precisam realizar rastreamento para HPV e câncer cervical, o que destaca a importância de um atendimento que considere a individualidade de cada paciente.
O estigma e as barreiras de acesso expõem a comunidade LGBTQIAPN+ a fatores de risco, como tabagismo e sedentarismo, resultando em uma saúde fragilizada. O geriatra Milton Crenitte ressaltou como variáveis como raça e renda amplificam as dificuldades enfrentadas. Pacientes muitas vezes chegam desgastados ao consultório, necessitando não apenas de tratamento físico, mas também de um ambiente acolhedor.
Desafios e vulnerabilidades no tratamento
Além dos desafios emocionais, a diversidade clínica exige abordagens específicas. Homens trans podem ter tecido mamário residual após cirurgia de afirmação de gênero, e mulheres trans com câncer de próstata enfrentam complicações hormonais que requerem cuidados diferenciados. Ana Paula Cardoso destaca que a individualização dos tratamentos deve ser respeitosa e informada.
Iniciativas como as do Einstein Hospital, que promove grupos multidisciplinares para traçar estratégias inclusivas, buscam melhorar a experiência do paciente LGBTQIAPN+. Entretanto, o Brasil ainda carece de políticas públicas e protocolos específicos para atender adequadamente essa população.
Cremilson Silva advertiu sobre a necessidade urgente de mais investigações epidemiológicas para entender melhor a incidência de câncer entre LGBTQIAPN+. Enquanto avanços são feitos, como capacitar profissionais e atualizar prontuários, uma mudança estrutural é imprescindível para garantir que todos tenham acesso a um tratamento digno e respeitoso.
Ao discutirmos mudanças no sistema de saúde, falamos sobre garantir que ninguém tenha que escolher entre sua dignidade e o acesso a cuidados médicos. É fundamental criar um espaço onde todos se sintam seguros e acolhidos, promovendo um tratamento que não exclua, mas abraçe a diversidade.
E você, o que pensa sobre a importância de um sistema de saúde inclusivo? Compartilhe suas ideias e experiências nos comentários.