Belo Horizonte – A adoção é um caminho repleto de desafios, especialmente para crianças e adolescentes que não se encaixam nos padrões procurados pela maioria das famílias. Aqueles que possuem problemas de saúde ou deficiências enfrentam uma espera ainda mais longa e, em muitos casos, permanecem em instituições até a vida adulta.
Desafios na Adoção – Maria do Carmo da Paixão Meijon Campolina, de 58 anos, e sua companheira Elaine Flausino Meijon Campolina da Paixão, de 48, tomaram uma decisão audaciosa em 2013: adotar três irmãos, incluindo Renan, que foi diagnosticado com paralisia cerebral. A decisão inicial não foi fácil. Maria fez uma pergunta crucial: “Se fosse da minha barriga, eu iria devolver?” Essa reflexão moldou sua coragem e compromisso.
O desafio foi evidente desde o início. Renan, na época com apenas dois anos, já estava enfrentando problemas de saúde. “Corremos atrás de tratamento para ele. Foi um grande desafio”, lembra Maria, enfatizando que o amor e a resiliência foram fundamentais. O apoio da comunidade também foi vital; amigos e vizinhos ajudaram a adaptar a casa para receber a nova família.
Após anos de revezamento e cuidados intensivos, Maria e Elaine encontraram um equilíbrio: Elaine trabalha em escalas que permite à família cuidar melhor de Renan. “As demandas são diversas, mas estamos juntas nessa”, afirma Maria. E, embora a jornada ainda tenha desafios financeiros e emocionais, elas não se arrependem.
O Quadro da Adoção em Minas Gerais – No estado, aproximadamente 180 crianças e adolescentes com deficiências estão aptos para adoção, mas muitos permanecem instituições por longos períodos. Dados oficiais revelam que, dentre as 576 crianças disponíveis, 17 possuem deficiências. Essa dura realidade contrasta com o sonho de uma família para cada criança.
O juiz Marcelo Augusto Lucas Pereira, da 2ª Vara Cível, destaca que muitas dessas crianças precisam de cuidados complexos e contínuos, o que desanima pretendentes. “Existem casos de abandono familiar completo, levando ao ingresso de ações judiciais para reverter a situação”, afirma ele. Entretanto, mesmo quando a adoção é uma possibilidade, é comum que as famílias busquem crianças mais novas e saudáveis.
A Vida Após o Acolhimento – Infelizmente, muitos jovens acabam passando sua infância e adolescência em instituições. A falta de vínculos familiares e apoio pode prolongar essa situação indefinidamente, levando a uma vida de institucionalização até a fase adulta. “A adoção de crianças com deficiência severa é uma exceção, não a regra”, explica o juiz.
Desde 2019, foram adotadas 33.268 crianças no Brasil, apenas 633 destas com deficiências intelectuais. Minas Gerais reflete essa estatística com 2.974 adoções, das quais somente 64 incluem crianças com deficiências. É um déficit alarmante, que exige um olhar mais atento da sociedade.
A história de Maria, Elaine e Renan é um exemplo brilhante de amor e superação. A adoção de crianças com deficiência deve ser vista como uma oportunidade valiosa e não como um fardo. A mudança de mentalidade começa quando cada um de nós decide olhar com mais empatia e compaixão para a realidade das famílias em vulnerabilidade. Pequenos atos de solidariedade podem fazer a diferença. E você, o que pode fazer para ajudar?