Gratidão ou traição? O tabuleiro político de Itamaraju entra em nova fase e coloca alianças à prova

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Na política, duas virtudes são inegociáveis: GRATIDÃO e CONFIABILIDADE. Esses valores, que transcendem tempo e circunstância, passaram a ser criteriosamente avaliados no cenário eleitoral de Itamaraju. O que antes era uma parceria consolidada agora dá sinais de fissura e o eleitor atento percebe.

Em 2014, um grupo político buscava ascensão estratégica, tentando mitigar a hegemonia de forças tradicionais. Nascia ali uma aliança entre lideranças que, embora distintas, partilhavam um projeto comum: fortalecer o município com respaldo estadual. A escolha foi clara: apoiar o então deputado estadual Adolfo Viana, que obteve 60.890 votos na Bahia, sendo 2.772 oriundos de Itamaraju.

Como gesto inequívoco de gratidão política, o parlamentar estruturou o grupo para a disputa do Executivo municipal. O médico Marcelo Angênica foi eleito prefeito em 2016 com 14.848 votos (46,42%), iniciando um ciclo administrativo respaldado por emendas parlamentares, suporte técnico na capital e ampliação da base política, um movimento que revela o conceito jurídico de cooperação institucional.

Entre os investimentos direcionados por Adolfo Viana ao município estão melhorias no São João, pavimentações de ruas e avenidas, o Colégio do Bela Vista, a Creche do Cristo Redentor e a revitalização da Lagoa do Jacaré, obras que simbolizam a materialização da confiança mútua.

Em 2018, já consolidado politicamente, Adolfo Viana disputou uma vaga na Câmara Federal e foi eleito com 102.603 votos, sendo 4.792 votos de Itamaraju, reflexo direto de uma parceria que se mostrava sólida. Em 2020, durante a crise sanitária da pandemia da COVID-19, o deputado atuou em Brasília na captação de recursos e direcionamento de projetos, assegurando milhões em investimentos. O resultado foi a reeleição de Marcelo Angênica com 17.592 votos (51,33%), ampliando sua legitimidade popular.

Mesmo diante de processos eleitorais e questionamentos jurídicos, a defesa política contou novamente com o respaldo de Adolfo Viana e do deputado estadual Tiago Correia, garantindo estabilidade administrativa e continuidade dos projetos, uma demonstração de compromisso republicano.

Em 2022, Adolfo Viana figurou entre os 20 mais votados da Bahia, com 123.199 votos, sendo 6.922 em Itamaraju. A parceria parecia inabalável. Em 2024, consolidou-se uma eleição histórica: o empresário e pecuarista Jorge Almeida, sogro de Adolfo Viana, venceu com 19.362 votos (54,09%), com o ex-gestor Marcelo Angênica no palanque.

Contudo, o ano de 2025 trouxe um cenário paradoxal. A relação entre o ex-prefeito e o atual gestor sofreu uma inflexão silenciosa. Embora o elo com Adolfo Viana sempre tenha sido pautado pela fidelidade política, um episódio recente, a derrota do presidente da Câmara Municipal, revelou nova configuração.

Marcelo Angênica passou a sinalizar aproximação com o deputado Robinho, ampliando o debate nos bastidores e fomentando a aproximação de aliados. Uma manobra que muitos classificam como estratagema político.

O impasse é delicado. Grande parte dos secretários, diretores e coordenadores da atual gestão foram mantidos ou indicados na administração anterior. A pergunta que ecoa nos corredores do poder é objetiva: permanecerão fiéis ao histórico de parceria com Adolfo Viana ou migrarão para uma nova aliança ainda em fase embrionária?

A política é feita de escolhas, mas também de memória. E memória coletiva, quando ignorada, pode se transformar em fator decisivo nas urnas.

Como ensinou Ulysses Guimarães: “A política ama a traição, mas abomina o traidor.” Talvez seja tempo de lembrar que coerência não é fraqueza, é caráter, e caráter é o único capital que não prescreve.

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