
A economia chinesa, um verdadeiro palco de contrastes, atrai a atenção de economistas ao redor do mundo. Em um extremo, o setor imobiliário — que já representou cerca de um quarto do PIB — enfrenta uma crise sem precedentes. Enquanto isso, do outro lado, uma nova China se ergue, investindo pesadamente em tecnologia, veículos elétricos e inteligência artificial, mostrando um crescimento surpreendente que promete redesenhar o futuro do país.
Arthur Carvalho, economista-chefe da TRUXT, voltou de uma recente viagem à China, entre setembro e outubro, com uma nova visão. Ele admite ter subestimado a habilidade do Partido Comunista em reestruturar as bases do crescimento econômico. Em uma conversa reveladora com Lucas Collazo, apresentador do Stock Pickers, Carvalho detalhou as transformações em curso e a inovação emergente que finalmente começa a preencher o vazio deixado pela construção civil.
A chamada “velha China”, dependente da construção e do endividamento, ainda gera preocupação. As vendas de terrenos caíram de 21% a 24%, marcando uma transformação estrutural, não apenas uma crise cíclica. O país enfrenta desafios como a deflação, o consumo fraco e a queda na demanda imobiliária, mas Carvalho também se mostrou impressionado com a capacidade de inovação e adaptação.
O ambicioso plano “China 2025”, que prioriza energias renováveis e tecnologia, começou a demonstrar resultados que superam até mesmo as expectativas mais otimistas. Setores que há um ano e meio representavam apenas 5% do PIB agora respondem por 15% a 20%, revelando uma velocidade de crescimento que surpreende. Nas ruas, a transformação é palpável, com carros elétricos se tornando a norma, enquanto robôs e sistemas de inteligência artificial já são parte do cotidiano, criando um ambiente que Carvalho descreve como “futurista”.
A BYD, por exemplo, simboliza essa transição, demonstrando o avanço da China de uma economia de baixos custos para a criação de marcas globais. “É inacreditável pensar que ter marcas reconhecidas mundialmente era impensável cinco ou seis anos atrás. Agora, essa é a realidade, e isso muda tudo”, observa Carvalho.
O sucesso das empresas de tecnologia também explica o recente desempenho do mercado acionário chinês, que está entre as maiores altas do mundo. Curiosamente, essa valorização acontece em um momento de fraqueza nos indicadores tradicionais. Carvalho destaca uma desconexão: a bolsa dispara enquanto o consumo permanece fraco e o país enfrenta deflação pelo terceiro ano consecutivo. Para ele, essa alta pode ter um viés político, servindo como um desvio da atenção para a crise imobiliária e dados fracos de atividade.
Além disso, a China avança na corrida da inteligência artificial, adotando um modelo distinto do norte-americano. Enquanto os EUA transferem a inovação para o setor privado, Pequim promove um desenvolvimento centralizado e estatal. Carvalho alerta para o risco de surgimento de um “campeão chinês” que poderia rivalizar com os Estados Unidos, trazendo novos desafios para o cenário global.
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