Reduzir o consumo de álcool pode evitar milhares de mortes por ano

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No Brasil, o impacto do consumo de álcool vai além do que os olhos podem ver. Em meio a números e siglas, está um custo altíssimo: vidas perdidas, famílias desestruturadas e uma economia sangrando bilhões anualmente. É um drama invisível para muitos que não enxergam as consequências à sua volta.

Nesta nova fase da campanha Dose de Realidade, a convergência de especialistas revela que pequenas mudanças nos preços das bebidas podem desencadear transformações significativas na saúde pública. O que parece apenas uma questão fiscal se torna um assunto de vidas e destinos.

Dados recentes da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), aliados à expertise da Vital Strategies e da ACT Promoção da Saúde, mostram que um aumento de apenas R$ 1,00 no preço de uma lata de cerveja pode reduzir o consumo em 18%. Se isso se estender a todas as bebidas, a queda no consumo pode chegar a impressionantes 20%.

Os números falam por si: mais de 10 mil vidas poderiam ser salvas anualmente – uma vida a cada hora. Além disso, a economia evitaria cerca de R$ 2,1 bilhões em perdas de produtividade decorrentes de mortes prematuras, dinheiro que poderia ser crucial para serviços essenciais, como o Farmácia Popular.

“Tributação adequada das bebidas alcoólicas é uma medida custo-efetiva recomendada pela OMS”, enfatiza Pedro de Paula, diretor executivo da Vital Strategies no Brasil. A reforma tributária atual representa uma oportunidade única de unir a política fiscal à saúde pública em um momento decisivo.

Essas estatísticas não são apenas números; representam consequências concretas: menos internações, menos acidentes e uma redução na pressão sobre o sistema público de saúde. “Esse aumento no preço diminuirá os danos que o álcool impõe à sociedade”, explica a professora Zila Sanchez, da Unifesp.

Um dos argumentos mais comuns contra o aumento de impostos é que isso não resolve o problema. Especialistas discordam veementemente, citando evidências internacionais que comprovam que políticas que elevam o preço reduzem o consumo e os danos sociais. “Não é uma punição ao consumidor”, sublinha Zila. “É uma intervenção que visa proteger a sociedade.”

O álcool, além de ser um fator de risco para mais de 200 doenças, causa um custo exorbitante ao país em perdas de vida e produtividade. Paulatinamente, a implementação de um imposto seletivo pode corrigir distorções econômicas, fazendo com que quem causa mais danos pague proporcionalmente mais.

A tributação não é um recurso para apenas arrecadar mais. É uma estratégia de saúde pública, projetada para salvar vidas e proteger os mais vulneráveis, especialmente os adolescentes, que iniciam o consumo cada vez mais cedo. Dados do Ministério da Saúde revelam que 60% dos meninos e 67% das meninas experimentam álcool antes dos 17 anos.

A questão do álcool vai além do consumo individual; é um problema que atinge a todos. Estima-se que, em 2019, mais de 100 mil brasileiros perderam a vida devido a causas relacionadas ao álcool, resultando em uma média de 12 mortes por hora. A professora Zila Sanchez resume o dilema: “Não é uma escolha individual quando seus efeitos recaem sobre toda a sociedade.”

“Não é uma escolha individual quando seus efeitos recaem sobre toda a sociedade”.

Professora Zila Sanchez, chefe do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo

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