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O fruto espúrio dos linchamentos virtuais

Na canção O Cu do Mundo, Caetano nos revela que “o fruto espúrio reluz à subsombra desumana dos linchadores”. E continua: “A mais triste nação/Na época mais podre/Compõe-se de possíveis/Grupos de linchadores”. Aos poucos, como trabalhadores resgatados de uma mina soterrada, estamos nos arrastando para fora de um dos períodos mais podres da nossa triste nação. Esse processo deixa sequelas. Temos as mãos sujas, a parte interna das unhas repleta de barro e sangue.

Num país onde execuções sumárias são costumeiras, temos assistido nos últimos anos à escalada de uma nova modalidade de linchamento: o virtual. Reputações arduamente construídas são maculadas em poucas horas e pessoas são agredidas em escala industrial. Um estrago desproporcional muitas vezes motivado por uma opinião infeliz ou uma reportagem equivocada. São traços que expõem a fratura moral de uma sociedade em declínio, embrutecida e sem escrúpulos, que fabrica cidadãos dotados de um senso de justiça enviesado, incapazes de coexistir com regras básicas de convívio.

Um exemplo do que digo aconteceu esta semana, com a publicação de uma matéria sobre a morte da cantora Rita Lee na Folha de S.Paulo, assinada pela repórter Laura Mattos. O título, a que a maioria dos agressores virtuais se apegou, estampava: “Rita Lee, rebelde desde a infância, se deixou guiar por drogas e discos voadores”. Um título ruim, inadequado para o momento e um tanto apelativo. Mas que, conhecendo-se a trajetória de Rita Lee, não causa espanto ou repulsa. Pois a repórter e o jornal tornaram-se alvo de milhares de comentários coléricos em questão de minutos.

No dia seguinte, Laura escreveu um depoimento na própria Folha sobre esse processo de “cancelamento” do qual foi vítima: “Tive alguma noção do que se passava quando uma sobrinha ligou chorando porque estavam postando fotos minhas com xingamentos inacreditáveis”. Mais: “Meu marido, que havia tido um mal-estar na noite anterior e, logo cedo, estava em um pronto-socorro, não conseguiu se desconectar da confusão e reagiu quando me chamaram de ‘vaca’ e disseram que eu só podia ter feito ‘o teste do sofá’”.

Eu mesmo recebi de amigos e conhecidos mensagens criticando de forma veemente o título da reportagem. Tentei explicar que se tratava de uma escolha inconveniente, fruto provavelmente da pressa em liberar a matéria para publicação. Entendam: não condeno críticas, elas sempre serão bem-vindas. O problema é quando a crítica se torna um massacre. Como jornalista que já enfrentou a tensão do deadline, não compreendo a dimensão de toda essa indignação. Como se qualquer erro banal se tornasse um erro imperdoável, um pecado venial que se revestisse de macabra mortalidade.

Tenho enxergado esse patrulhamento em todos os cantos. E confesso que me incomodam profundamente o ódio desmedido, a precariedade de raciocínio e a insuficiência de sensatez. Uma deficiência cognitiva que faz milhares de pessoas se apegarem a detalhes, como um título de reportagem. Estamos mais agressivos – eu mesmo já me exaltei e falei o que não devia por aí – e tendemos a replicar esse comportamento no dia a dia. Um processo quase sempre inútil, que nos desgasta e, pela catarse, nos anestesia.

Esse modo de agir me lembra o de uma manada enfurecida. Já passei por algo semelhante certa vez, quando escrevi uma crônica neste mesmo espaço que continha a seguinte frase: “Na hora estava muito nervoso, rezando para um deus que, como de costume, se revelou inócuo”. Eu me referia a um homem simples que morrera durante um assalto a ônibus. As reações foram de uma cólera que beirava a insanidade, com vitupérios em sequência, em sua maciça maioria desferidos por membros da comunidade evangélica. Eles se apegaram a uma frase como se ela encerrasse algo de maligno.

Algo muito mais grave e perigoso é a indústria de mentiras, que nos últimos anos se tornou um case de sucesso. Perdemos quatro anos de nossas vidas por conta dessa engrenagem abjeta (uns perderam a própria vida). É evidente que esse modus operandi típico da extrema-direita precisa de algum tipo de regulação, embora ache um tanto açodada a tentativa de aprovar a qualquer custo um projeto de lei sem uma discussão mais aprofundada. Ficar como está é que não dá.

Nesses tempos de intolerância coletiva, costumo lembrar dos piores momentos vividos pela civilização. Um deles foi a queima de livros ocorrida na noite de 10 de maio de 1933, 90 anos atrás, quando piras formadas por alguns dos maiores monumentos da cultura germânica arderam em Berlim e em outras cidades da Alemanha nazista. Guardadas as proporções, ali também havia uma cultura do “cancelamento”. Havia sobretudo intolerância e ódio a quem pensa diferente. Sabemos o que veio depois. Torço para que não voltemos a provar desse fruto espúrio.

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