InícioEditorialTem uma mulher oprimida na minha glace de limão

Tem uma mulher oprimida na minha glace de limão

E de pensar que até há alguns anos eu não gostava nem de cantar e nem de que cantassem parabéns para mim. 

Eu sei lá! Aquilo me constrangia, eu sentia como uma obrigação das pessoas de se levantarem, interromperem as suas conversas, e mesmo sem estarem muito afins terem que responder de imediato à convocação do “tá na hora dos parabéns”. 

Eu não sei quando isso começou, mas na cena que trago na memória eu tenho a impressão de que era uma vela de número sete. 

Eu usava um vestido evasê de algodão num padrão vichy azul e branco, de gola quadrada, elastex no peito e mangas curtas bufantes. Muito jeitosinha, mas trazia no semblante um certo ar  de tédio e distanciamento. E também as maria-chiquinhas não ajudavam – de tão esticadas faziam doer-me a cabeça. 
Mas ainda assim eu precisava corresponder,  ainda que com mínimo sorriso, a todos aqueles olhares de parabéns pra você em minha direção.

O bolo era o ponto de fuga do meu próprio olhar. Era azul para combinar com o vestido (ou vice-versa) mas eu preferiria o lilás. Era quadrado, mas eu gostava mil vezes mais dos redondos. Me perguntava se era mesmo meu aquele bolo ou mera formal idade social imposta à minha mãe. E aos berros de “é pique” lembrava de sua fisionomia cansada a esculpir cada uma daquelas pitanguinhas de glace com seu saco de confeiteira algumas horas antes. Eu sabia o quanto estava exausta por trás daquela necessidade de sorrir.

Não bastasse faxinar a casa, decorar, fazer e enviar os convites, as três viagens à modista, e ter que me levar ao salão de Lili para os bobs e depois virar o meu nero, ainda tinha que fazer o bolo. Me lembro que ela chegou a fazer um curso de confeitaria para estas ocasiões. Sim, porque os salgadinhos e doces era Dona Carmem quem os fazia, mas a cartilha da boa mãe sugeria sutilmente como cairia bem se também o bolo fosse feito por ela – um “plus a mais” de aprovação social, uns pontos extras que ela achava que precisava, e se matava ainda mais. 

Era esse o gosto dos meus bolos de aniversário da infância: o sacrifício da minha mãe presa e incapaz de tacar fogo naquela maldita cartilha. 

Obviamente que eu só vim a entender tudo o que sentia mas não sabia explicar depois de adulta no divã, mas até lá fui aquela chata que não gostava da hora dos parabéns. 

Transferi para o bolo e os parabéns a culpa de todo aquele circo opressor de mães e não me lembro de ter comido do meu bolo uma vez sequer durante as festas. 

Só quando todos iam embora é que eu pedia pra mainha cortar um pedaço pra mim daquele jeito cheio de técnica que não deixava quebrar nenhuma camada. Daí ela abria um guaraná e fazia um pratinho de papelão com tema da festa contendo um salgadinho e um docinho de cada. 

Não dava pra começar de novo e comemorarmos ali mesmo na cozinha só nós quatro? Ia ser tão mais legal! Mas painho ia acordar cedo, Junior já estava dormindo que tinha se divertido à beça, e mainha estava cuidando de arrumar a sala e recolher os descartáveis que amanhã tinha que acordar cedo pra trabalhar na prefeitura.

Era nessa hora que eu comemorava sozinha o meu aniversário com o bolo de massa branca amanteigada que derretia na boca feito um sonho bom, com duas camadas dos meus recheios preferidos (agrado interno), que eram coco e doce de leite, coberto com a melhor glace de limão da vida.

Só fui encontrar paralelo de bolo de glace aos 51 anos aqui em Igatu, com esse bolo da foto de coco e maracujá de Dona Nívea que encomendei para mim mesma.

O trauma foi tamanho que cheguei a propor no dia do aniversário de um ano do meu filho, que não precisava de parabéns. Como a minha mãe, estava exausta (repetição) e me veio à boca o gosto amargo da hora do parabéns da minha infância. Mas graças a Deus a minha cunhada me tomou pela mão e me explicou como aqueles momentos seriam importantes para o meu filho; como seria bacana e importante acessar aquelas memórias percorrendo seus álbuns de fotos. E ela estava coberta de razão. Ele ama mergulhar nesses lugares de memória, lembrar das pessoas ao seu redor em cada etapa da vida, perceber as mudanças em si mesmo, e sentir-se seguro e amado entre a sua família. 

Fui fazer terapia para entender que não se tratava do bolo ou dos parabéns, mas de mais um estrago histórico na vida de mais uma mulher escondido sob a minha glace de limão. 

Mainha continua dando satisfação, tadinha. 

Mas eu nunca mais abri mão do meu bolo de aniversário.

Kátia Najara é cozinheira e empreendedora criativa do @piteu_cozinhafetiva
 

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