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Carta a ministro do STF foi inventada por comentarista e não escrita por traficante

Conteúdo investigado: Post com áudio do comentarista Caio Coppolla lendo suposta carta de um traficante ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin. A publicação exibe uma imagem de Coppolla e o seguinte texto: “Vergonha nacional. Áudio do chefe do tráfico enviado para ministro do STF.”

Onde foi publicado: TikTok e Facebook.

Conclusão do Comprova: É enganoso um post que circula nas redes sociais com áudio do comentarista Caio Coppolla lendo uma carta supostamente escrita por um chefe do tráfico de drogas e endereçada ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin. Na verdade, a carta, em que o suposto traficante agradece a “sensibilidade com a classe criminosa”, foi inventada pelo próprio comentarista como crítica a uma decisão de Fachin.

A informação consta no vídeo original, da JP News, de 2022. No quadro Boletim Coppolla, antes de fazer a leitura do texto, o comentarista explica à audiência que foi ele próprio quem o escreveu. Este trecho, porém, foi omitido das peças de desinformação que circulam com a frase “vergonha nacional” em referência ao STF. Nos comentários, as pessoas questionam “será verdade?”.

A carta escrita por Coppolla com elogios do suposto traficante ao ministro buscava criticar, de forma irônica, decisões tomadas pelo Supremo durante a pandemia da covid-19, envolvendo ações da Polícia Militar (PM) nas favelas do Rio de Janeiro e a situação de presos pertencentes a grupos de risco do coronavírus e mantidos em presídios superlotados.

O Comprova classifica como enganoso todo conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Alcance da publicação: O Comprova investiga os conteúdos suspeitos com maior alcance nas redes sociais. Até o dia 5 de junho de 2023, o post acumulava 375,7 mil visualizações no TikTok e 137 mil no Facebook. Os vídeos foram excluídos posteriormente das plataformas.

Como verificamos: Fizemos uma busca no Google pelas palavras-chave “carta”, “traficante” e “ministro do STF”. O vídeo com o comentário original apareceu no topo da página de resultados. Na sequência, assistimos ao vídeo, por meio do qual é possível entender que se trata de uma carta inventada pelo próprio comentarista.

Também fizemos buscas por conteúdos relacionados às decisões judiciais citadas na abertura do comentário e, por fim, entramos em contato com os responsáveis pelos posts enganosos.

Carta é invenção de comentaristaA carta do suposto traficante endereçada ao ministro foi, na verdade, inventada por Caio Coppolla. Em 31 de maio de 2022 foi ao ar uma edição do quadro Boletim Coppolla, da JP News, em que o comentarista critica decisões do Supremo, sobretudo do ministro Edson Fachin, no âmbito da segurança pública do Rio de Janeiro.

Antes de fazer a leitura da carta, no minuto 2:22 do vídeo, Coppolla confirma a autoria do texto. “Eu confesso que o meu apreço pelos bons modos e acima de tudo o meu respeito pela nossa seleta audiência me impedem de criticar a postura de certas autoridades com a devida ênfase. Por isso, hoje eu optei por dar vazão à minha indignação de uma outra forma, imaginando como seria a carta de um chefe do tráfico para o ministro Edson Fachin do STF”.

As decisões do STFNa carta inventada, Coppolla faz referência a diversas decisões do STF no âmbito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, conhecida como “ADPF das Favelas”. Movida em novembro de 2019 pelo PSB, a ação questiona a política de segurança pública no Rio de Janeiro.

Logo no início da leitura da carta, o comentarista diz: “Enquanto certos juristas diziam que covid não era habeas corpus, vossa excelência teve sensibilidade com a classe criminosa e fez a coisa certa. Desencarcerou geral com habeas corpus coletivo.”

Coppolla se refere a uma decisão do ministro Edson Fachin que, em dezembro de 2020, determinou que presos do grupo de risco da covid-19 que cumpriam pena no regime semiaberto fossem transferidos para prisão domiciliar. A decisão de Fachin, na época, atendeu parcialmente a um pedido da Defensoria Pública da União (DPU), que solicitou a concessão de um habeas corpus a favor de todas as pessoas presas em locais acima da sua capacidade, que fossem integrantes de grupos de risco da covid e que não tivessem praticado crimes com violência ou grave ameaça.

Em seguida, Coppolla afirma que leu todas as 11 sugestões de Fachin “para reduzir a letalidade policial nas comunidades dominadas pelos meus colegas aqui no Rio de Janeiro”, em referência a uma decisão liminar do ministro de junho de 2020, que restringiu as operações em comunidades do Rio durante a pandemia. As operações passaram a ser permitidas apenas em casos excepcionais, com a comunicação imediata ao Ministério Público. Dois meses depois, o STF formou maioria e confirmou a decisão, que permanece em vigor.

Em fevereiro de 2022, o STF ​esclareceu os limites para operações policiais em comunidades fluminenses durante a pandemia e determinou que o governo do Rio encaminhasse ao Supremo, em até 90 dias, um plano com medidas para reduzir a letalidade policial e controlar as violações de direitos humanos pelas forças de segurança. O Supremo também estabeleceu, entre outras medidas, a criação de um observatório judicial sobre polícia cidadã, no âmbito do Conselho Nacional de Justiça (CNJ); a priorização de investigações de incidentes que tenham como vítimas crianças e adolescentes; a instalação de equipamentos de GPS e sistemas de gravação de áudio e vídeo nas viaturas e fardas dos agentes; e a proibição da utilização de domicílio ou imóvel privado como base operacional das forças de segurança.

Fachin chegou a se reunir, em abril deste ano, com o procurador-geral da República, Augusto Aras, e com a vice-procuradora-geral da República, Lindôra Araújo, para informar à PGR sobre os últimos desdobramentos da ADPF e esclarecer a demora do governo do Rio de Janeiro em instalar as câmeras corporais nos agentes de segurança.

Quem é Caio CoppollaCoppolla é um comentarista político conhecido por seu posicionamento conservador e alinhado à política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Ele trabalhou na JP News até 2019, quando passou a integrar a equipe da CNN Brasil no programa Liberdade de Opinião. Durante o período na CNN, Coppolla fez mobilizações pelo impeachment do ministro do STF e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes.

Dois anos depois, Coppolla foi demitido e retornou à Jovem Pan para comandar o quadro Boletim Coppolla, que, conforme o site do veículo, trata sobre política, economia, justiça, educação, cultura, saúde e comportamento. Ele foi demitido novamente da JP News em outubro de 2022, após a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Atualmente, Coppolla integra o quadro fixo do programa diário O Grande Debate e comanda o Boletim Coppolla na CNN Brasil. No programa, ele fala sobre “os bastidores do poder, as principais decisões do governo e do Congresso Nacional, além de trazer outras análises sobre política, economia e justiça”, segundo o site da CNN.

O que diz o responsável pela publicação: O Comprova entrou em contato com o perfil que postou o vídeo pelo Facebook e pelo Instagram, mas não obteve retorno até a publicação desta checagem. Não foi possível contatar @antoniocosta1962, que fez a postagem enganosa no TikTok, porque a plataforma não permite o envio de mensagens entre contas que não se seguem. A busca pelo nome da conta em outras redes sociais retornou alguns resultados, mas como o perfil no TikTok não possui foto ou vídeo que identifique o responsável, não foi possível encontrar contas correspondentes.

O que podemos aprender com esta verificação: Ao se deparar com publicações alarmistas que utilizam expressões como “vergonha nacional” sem mencionar a fonte da informação, desconfie. É possível também questionar: “Se um chefe do tráfico tivesse encaminhado uma carta a um ministro do Supremo, a imprensa profissional não teria noticiado o caso?”

No caso do post verificado pelo Comprova, bastaria uma pesquisa no Google com palavras-chave relacionadas ao tema para encontrar o vídeo original e entender o contexto da gravação, que foi omitido do conteúdo desinformativo.

Por que investigamos: O Comprova monitora conteúdos suspeitos publicados em redes sociais e aplicativos de mensagem sobre políticas públicas e eleições no âmbito federal e abre investigações para aquelas publicações que obtiveram maior alcance e engajamento. Você também pode sugerir verificações pelo WhatsApp +55 11 97045-4984.

Outras checagens sobre o tema: O mesmo conteúdo foi verificado pela agência Aos Fatos. O Comprova já checou outras publicações envolvendo decisões judiciais e ministros brasileiros. Anteriormente, por exemplo, mostrou que vídeo engana ao afirmar que Justiça autorizou invasões de domicílio no Brasil; que vídeo engana ao dizer que ministro Barroso quer socializar investimentos de brasileiros; e que post tira de contexto decisão do TCU sobre joias recebidas por Bolsonaro.

Esta checagem foi realizada por jornalistas que integram o Projeto Comprova, criado para combater a desinformação, do qual o Metrópoles faz parte. Leia mais sobre essa parceria aqui.

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