“Bomba-relógio”: SP vê triplicar atendimento de viciados em bets

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No Brasil, o mundo das apostas online transformou-se em um verdadeiro fenômeno. Com a expansão desse mercado, as buscas por ajuda médica para o vício em jogos de azar dispararam em São Paulo, triplicando nos últimos três anos, conforme dados da Secretaria Municipal da Saúde (SMS). No entanto, essa crescente demanda não encontrou um correspondente aumento na oferta de tratamento, deixando muitos em uma situação de vulnerabilidade.

Entre janeiro e setembro de 2025, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Centros de Atenção Psicossocial (Caps) registraram 114 atendimentos relacionados ao transtorno do jogo, um aumento de 91% em relação ao ano anterior. A situação é alarmante também no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-HCFMUSP), onde o Programa Ambulatorial do Jogo viu seu número de pacientes quase triplicar em um ano.

“Estamos fazendo uma força-tarefa, mas é complicado. A demanda é altíssima e estamos sentados em uma bomba-relógio”, alerta o psicólogo Edilson Braga, do IPq-HCFMUSP.

As apostas esportivas e cassinos online foram liberados em 2018, mas seu crescimento explosivo ocorreu entre 2021 e abril de 2024, com uma impressionante alta de 730%. No último ano, cerca de 40 milhões de brasileiros participaram de apostas, movimentando R$ 240 bilhões. Enquanto esse setor avança, os que lutam contra a compulsão por jogos clamam por ajuda.

O perfil dos dependentes revela um quadro de comorbidades, como ansiedade e depressão. Casos como o da diarista Wanessa Silva exemplificam essa situação. Em dois anos, ela não apenas perdeu um emprego estável, mas também consumiu todo o valor de sua rescisão em apostas. Hoje, luta contra a insegurança financeira, que também afeta seu relacionamento familiar.

“Minhas irmãs, meu pai e meu marido acham que eu já parei de apostar. Ele me disse que, se souber que continuei, pedirá a separação”, compartilha Wanessa.

Como ela, 19% dos apostadores comprometem suas rendas, 17% não conseguem pagar contas e 29% veem seus nomes negativados devido aos jogos. Alarmantemente, uma parte dos benefícios sociais do Bolsa Família tem sido destinada a apostas, levando o Ministério da Fazenda a agir para limitar essa prática. O diretor da Polícia Federal, Marcelo Maceira, também afirma que algumas casas de apostas são alimentadas por dinheiro ilícito.

Diante da realidade, São Paulo implementou programas para capacitação e tratamento, mas a busca por ajuda muitas vezes se transforma em uma saga desgastante. O Metrópoles acompanhou uma dessa odisséia, percorrendo diferentes unidades de saúde sem sucesso inicial, até encontrar assistência no sétimo local visitado.

“Infelizmente, profissionais capacitados sobre o transtorno do jogo são raros no Brasil”, enfatiza Braga. O tratamento, que inclui acompanhamento psicológico e psiquiátrico, é fundamental, mas o suporte ainda é insuficiente.

“A solução efetiva depende de restrições às propagandas de apostas, que alimentam a compulsão. Precisamos também de mais investimento em tratamento e campanhas de prevenção”, sugere.

A Secretaria Municipal da Saúde, em resposta, destacou suas ações de qualificação contínua de profissionais e acesso à rede de atendimento. Contudo, as dificuldades observadas pela equipe do Metrópoles revelam um caminho ainda a ser percorrido.

O estado se comprometeu a fortalecer a capacitação de equipes em saúde mental para abordar questões relacionadas ao vício em jogos, mas a realidade ainda é desafiadora. Apenas com consenso e ação efetiva poderemos iluminar essa triste realidade que muitos enfrentam todos os dias.

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