Influenciador chamou atenção nas redes com peça ousada; estilo sem gênero ganha cada vez mais adeptos entre os famosos
28/07/2026 12:23
, atualizado 28/07/2026 12:26

O desfile da marca Maldito Paris, realizado na última sexta-feira (24/7) em São Paulo, rendeu um dos assuntos mais comentados da semana nas redes sociais. O influenciador Juliano Floss chamou a atenção ao surgir com uma cueca de renda transparente à mostra, combinada com calça jeans cargo e jaqueta puffer estampada. A repercussão imediata reacendeu o debate sobre a moda genderless (ou agênero), movimento que vem ganhando força ao desafiar as barreiras do guarda-roupa tradicional.
Vem entender!

Moda agênero
O termo ganhou força a partir da subcultura genderless, nascida no Japão em meados dos anos 2010, e marca uma diferença importante em relação à androginia tradicional. Enquanto a androginia busca a mistura de elementos associados ao masculino e ao feminino, o genderless propõe algo mais radical: a eliminação da fronteira entre essas categorias. Não se trata de “homem de saia” ou “mulher de terno”, mas da premissa de que a roupa, em si, não pertence a gênero algum.

Essa, contudo, não é uma discussão nova na moda. Jean Paul Gaultier colocou homens de saia nas passarelas ainda em 1985, e nomes como Martin Margiela, Comme des Garçons e Ann Demeulemeester deram continuidade a essa desconstrução ao longo dos anos 1990. O que muda agora é a escala: a conversa há muito tempo saiu das passarelas e, mais recentemente, ganhou o street style, com croppeds sendo incorporados ao guarda-roupa masculino e peças oversized dominando o feminino. O fenômeno é impulsionado por referências pop que dão ao tema um alcance massivo.
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Desfile Jean Paul Gaultier, em1981
Michel Maurou/WWD/Penske Media via Getty Images
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Coleção de 1985, de Jean Paul Gaultier
Guy Marineau/WWD/Penske Media via Getty Images
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Coleção de 1985, de Jean Paul Gaultier
Guy Marineau/WWD/Penske Media via Getty Images
Nos anos 1970, o movimento ganhou um capítulo mais performático, impulsionado pelo glam rock. Marc Bolan, do T. Rex, e Freddie Mercury, do Queen, incorporaram maquiagens, brilhos e figurinos andróginos ao centro dos palcos, tratando a ambiguidade de gênero como linguagem artística a partir de uma estética conscientemente construída.
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Marc Bolan em casa, em 1975
Anwar Hussein/Hulton Archive/Getty Images
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Marc Bolan, em 1973
David Redfern/Redferns/Getty Images
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Show da banda Queen em 1977 na Califórnia
Richard Creamer/Michael Ochs Archives/Getty Images
Celebridades que apostam na moda agênero
No cenário pop atual, Harry Styles é um dos nomes mais associados ao movimento. Desde 2020, o cantor consolidou a fusão de elementos femininos e masculinos em sua identidade visual, incorporando saias, vestidos e pérolas com extrema naturalidade ao seu guarda-roupa.

Em sua fase mais recente, marcada por um visual focado na alfaiataria, a troca com o público se reflete na prática: fãs — em sua maioria mulheres — passaram a incorporar itens historicamente masculinos às suas produções, como as gravatas. O artista, por sua vez, mesmo quando opta por ternos tradicionais, recorre a sapatilhas para criar contraste e imprimir personalidade ao visual.

A figura de Styles costuma ser lida, inclusive pela crítica de moda, como uma reencarnação contemporânea de David Bowie. O próprio cantor já verbalizou essa referência ao citar o alter ego Ziggy Stardust como inspiração direta, associando a audácia de Bowie em reinventar a própria imagem à liberdade que busca construir no seu guarda-roupa.

Billie Eilish é outra figura central nessa conversa, embora sua relação com o tema seja bem diferente da de Styles. Desde o início da carreira, a cantora ficou conhecida pelas roupas largas e oversized — uma escolha que, por anos, foi lida pelo público como uma mera declaração estética. Em entrevistas mais recentes, porém, Billie revelou que a motivação era mais profunda: uma relação complexa com a imagem corporal e o desejo de não ser percebida como “feminina e, por consequência, frágil”. A própria artista chegou a definir essa atitude, mais tarde, como um reflexo de misoginia internalizada.

No Brasil, essa conversa caminha em um ritmo diferente. O cantor Jão, por exemplo, constrói sua identidade visual de forma deliberada e contínua, consolidando-se como um dos nomes mais consistentes da moda genderless no país. Juliano Floss, por sua vez, costuma ser alvo de críticas justamente por romper com a masculinidade tradicional — tanto em seu estilo quanto por sua atuação na dança. O influenciador já chegou a ser rotulado nas redes como “hétero-afeminado” por seus gestos, além de já ter vestido peças como croppeds ou jockstraps.

Liberdade na hora de se vestir
O uso da cueca de renda por Juliano Floss prova que o tema ainda soa como novidade para grande parte do público. Na prática, parece não haver espaço para que um homem incorpore peças ou trejeitos lidos como femininos sem que isso se torne, automaticamente, um questionamento sobre sua orientação ou masculinidade. A liberdade para se vestir definitivamente aumentou — abrindo caminhos que sequer eram cogitados anos atrás —, mas o peso do julgamento sobre quem decide aderir à moda sem gênero continua praticamente o mesmo.







