InícioEditorialPolítica NacionalNinguém merece morrer, pior ainda por engano, diz médico Daniel Proença

Ninguém merece morrer, pior ainda por engano, diz médico Daniel Proença

Ortopedista de 32 anos foi o único sobrevivente de ataque que matou 3 no Rio; disse que precisaria de um “bom motivo” para voltar à Barra e que congressos de medicina já não são suficientes

O médico Daniel Sonnewend Proença, 32 anos, único sobrevivente do ataque a tiros em um quiosque na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, em outubro de 2023, disse que não consegue ver outro motivo além de engano para ele e outros 3 colegas terem sido atacados. É a principal linha de investigação sobre o caso. Em entrevista ao Poder360, o ortopedista disse que acha o inquérito “tão confuso” quanto as mortes.

Proença afirmou também que precisa de um “motivo muito bom” para retornar à cidade. Os motivos que o faziam viajar eram os congressos de medicina, como o que participaria no dia da tragédia: “Hoje, eles não são suficientes.”

Segundo a polícia, os ortopedistas Diego Ralf Bomfim –irmão da deputada federal Sâmia Bomfim (Psol-SP)–, Marcos de Andrade Corsato e Perseu Ribeiro Almeida foram assassinados por engano depois de um deles ser confundido com um miliciano jurado de morte. O trio e Daniel estavam em um quiosque de praia quando foram alvejados. Os criminosos dispararam diversas vezes depois de descer de um carro na avenida Lúcio Costa. A ação criminosa durou menos de 1 minuto (assista aqui –as imagens são fortes).

“Acho o inquérito uma confusão, tão absurdo quanto o que aconteceu. Mas não consigo enxergar outro motivo para o crime além de engano. Fica uma sensação de revolta e indignação. Ninguém merece morrer, menos ainda pelo tráfico, pior ainda por engano”, afirmou Daniel.

O médico relatou que pensou que Diego Bomfim sobreviveria ao ataque. Ele viu Perseu sendo executado e Marcos sem vida ao seu lado, mas ouviu o irmão de Sâmia Bomfim pedindo ajuda até o socorro chegar. Daniel contou que não perdeu a consciência em nenhum momento durante o ataque. Só ficou desacordado quando recebeu a anestesia.

“Ouvi o Diego gritando, pedindo socorro. Olhei para o lado e vi o Corsato morto, e eu já tinha visto o Perseu sendo executado. Naquele momento, pensei que pelo menos eu e o Diego conseguiríamos sobreviver e ajudar a cuidar da família dos outros. Me deu um ar de esperança de pelo menos ele sobreviver comigo”, disse.

Quase 3 meses depois do ataque, Daniel segue uma rotina intensa de fisioterapia. Ele já passou por várias cirurgias e se prepara para realizar novas. Não tem previsão para voltar a trabalhar. O processo de recuperação está no estágio inicial e ainda não é possível avaliar as sequelas que ficarão.

Logo depois dos disparos, em 5 de outubro, Daniel foi levado para um hospital na zona oeste do Rio e, depois, para um particular na Barra. Três dias depois do crime, foi transferido para o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo). O hospital Igesp, um dos locais de trabalho do ortopedista, se ofereceu para pagar a transferência. 

Ele passou por novas cirurgias quando chegou em São Paulo. Depois, ficou por algumas semanas na UTI (unidade de terapia intensiva) do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas. Em seguida, foi transferido para a Rede de Reabilitação Lucy Montoro.

Entenda os pontos-chaves do crime no infográfico a seguir e, abaixo, leia a entrevista com Daniel sobre a tragédia. Ele relatou como pensou que os tiros eram fogos de artificio, a relação de amizade com Diego e Perseu e de admiração com Marcos Corsato e como sempre esteve decidido a lutar pela vida.

Poder360: Como foi aquele dia? O que aconteceu da chegada na cidade até o momento do ataque?

Daniel Proença: “Chegamos na 4ª feira. Eu cheguei por volta das 9h no hotel. Viajei de ônibus, daqueles fretados que descem na Barra [da Tijuca] mesmo, já para evitar ficar andando muito pelo Rio. Fiz o check-in no hotel, depois desci para praia e almocei por lá. Voltei, dormi um pouco e fui para academia. Foi o tempo de os meninos começarem a chegar. O Perseu [Ribeiro Almeida] chegou umas 18h, de avião e estava bem cansado. Como ele era do interior da Bahia, teve que ir até Salvador e de lá pegar o voo para descer no Rio. Ele foi descansar um pouco. Às 19h30, passei para encontrá-lo e fomos no quiosque em frente ao hotel. O Diego [Ralf Bomfim] chegou às 21h. Só deixou as malas no hotel e foi encontrar a gente. O doutor [Marcos de Andrade] Corsato não tinha combinado com a gente, mas também chegou no mesmo dia. Quando ele passou pelo quiosque, encontrou a gente jantando e escolheu ficar na nossa mesa. Quando ele se senta, a conversa se estende, porque era um cara com mais de 30 anos de ortopedia, que foi chefe de vários nossos chefes.”

Outras pessoas sentaram na mesa de vocês enquanto estavam no quiosque?

“Aquela mesa era para ter muito mais gente. Passaram outras pessoas que a gente conhecia. Algumas que a gente acabou nem chamando. Outras passaram, cumprimentaram, sentaram, mas foram embora depois de um tempo.”

Como foi o momento do ataque?

“Quando deu por volta da 0h45, o Diego propôs que a gente fosse embora por causa do horário. Passamos a procurar o garçom para pagar a conta. Neste momento, chegaram os traficantes e começaram a executar os disparos.”

Como foi a situação? Em que momento você entendeu o que estava acontecendo?

“Na hora, eu não entendi que eram disparos. De 4ª para 5ª daquela semana tinha tido um jogo do Fluminense, a semifinal da Libertadores, e o time tinha se classificado. Na hora dos disparos, passou um carro jogando fogos para cima. Quando comecei a ouvir o barulho e sentir um calor nas costas, eu associei aos fogos.”

Qual foi a sua reação na hora?

“De defender meu rosto, rodar para direita e me jogar no chão para sair da direção dos fogos. Comecei a sentir muita dor no braço, do lado direito do corpo. Quando caí no chão, estava surdo do ouvido direito, com muita dor. Meu braço direito já estava com dificuldade de responder. Eu o coloquei em frente dos meus olhos e vi que estava quebrado. Vi que minha mão esquerda estava machucada. Como estava conseguindo mexê-la, eu passei a mão no meu ouvido direito e senti como se fosse uma couve flor. Na hora, entendi que algo muito grave estava acontecendo. Comecei a me mexer no chão para tentar sentir meus pés, minha coluna. Estava tudo OK. Examinei e minha mão estava normal. Forcei um pouco de vômito e não saiu sangue. Eu falei: ‘Estou respirando, estou pensando e não estou vomitando sangue. Alguma coisa grave aconteceu, mas, por enquanto, não teve acometimento neurológico’. Nesta hora, olhei para o lado e vi o traficante executando o Perseu. Aí eu entendi que a gente estava tomando tiro. Soube que precisava baixar minha frequência cardíaca. Tentei ao máximo ficar calmo, controlar minha respiração para que eu sangrasse menos.”

Você foi alvejado enquanto estava no chão?

“Sim, tomei vários tiros na região do glúteo enquanto estava tentando me controlar. Os tiros continuaram. Pensei que em algum momento teria uma falta de ar muito grande ou pararia de pensar. Fiquei alguns segundos sendo alvejado sem ter muita reação. Na hora, não sentia medo, mas eu estava decidido a lutar pela vida.”

O que você pensou naquele momento?

“Caso eu morresse, sabia que ia encontrar muita gente. Tem muitas pessoas que eu gosto e já faleceram, principalmente meu pai. Não posso dizer que eu senti que ele estava lá, mas posso dizer que, se existisse a possibilidade de ele estar em algum lugar, seria do meu lado, me defendendo. Ele sempre foi um pai protetor. Eu pensei: ‘Se for minha hora, tudo bem. Não tenho nenhum arrependimento das coisas que fiz. Claro que gostaria de fazer mais, mas não tenho nenhum arrependimento. Eu vou tranquilo. Mas eu quero lutar para sobreviver, porque tem muita gente que eu amo e seria injusto eu aceitar ir embora antes deles’ Foi um momento em que eu simplesmente lutei para sobreviver. Até que os traficantes foram embora, os executores da chacina. Depois, fiquei me examinando, tentando controlar a respiração para sangrar menos. Fiquei consciente até chegar no hospital.”

O socorro demorou muito tempo?

“Naquele momento de fragilidade, você acha que tudo está demorando mais tempo. Estava deitado e os pedestres se aproximaram, começaram a gravar vídeos. Isolaram a área. Ouvi alguém falando que tinham 3 mortos e 1 vivo. Eu comecei a balançar a cabeça. Depois, falaram que eram 2 vivos. Foi quando ouvi o Diego gritando, pedindo socorro. Olhei para o lado e vi o Corsato morto, e eu já tinha visto o Perseu sendo executado. Naquele momento, pensei que pelo menos eu e o Diego conseguiríamos sobreviver e ajudar a cuidar da família dos outros. Me deu um ar de esperança de pelo menos ele sobreviver comigo.”

O que o Diego gritava além de pedidos de ajuda?

“Ele falou que estava com falta de ar. O 1° socorro que chegou foi nele. Eu não falei nada. Depois, chegou o 2º. Não consigo precisar o tempo, mas achei que demorou muito.”

Você ficou desacordado em algum momento?

“Não, fiquei consciente o tempo inteiro. Falei meu nome para os socorristas, meu tipo sanguíneo, relatei minhas lesões, me identifiquei como médico. Me colocaram na ambulância. Demoraram muito para pegar o acesso periférico. Aí eu falei para gente ir para o hospital porque estava estável e dei algumas instruções para eles agilizarem. No hospital, foi a mesma coisa. Me identifiquei como médico, pedi para pegar um acesso mais central. Eles acabaram pegando da região do pescoço. Nesta hora, fiquei mais tranquilo porque, pelo menos, não morreria de falta de sangue.”

Você foi atendido 1º em um hospital público do Rio de Janeiro? Quando foi transferido para São Paulo?

“No 1º momento, fui para o Hospital Lourenço Jorge. Estava consciente o tempo todo. Só desacordei na hora da anestesia. Quando voltei à consciência, minha família estava lá. Depois, fui transferido para o Hospital Américas, na Barra. Fiquei internado uns 2 ou 3 dias, até 2ª feira, quando fui transferido para São Paulo.”

Você ficou mais tranquilo depois da transferência?

“Sim. Eu estava sendo muito bem tratado no Rio, mas tinha muita insegurança, medo, muita gente que não conhecia. Meus amigos e outros familiares estavam muito longe. Como eu tinha feito residência no Hospital das Clínicas, o pessoal de lá entrou em contato com minha família e sugeriu me transferir para ser cuidado lá. Eu topei porque me sentiria mais seguro, não por uma questão de competência, mas por estar mais perto de conhecidos, de casa. Achei que me sentiria mais acolhido.”

Como era sua relação com seus colegas? Você conhecia o Diego, o Marcos e o Perseu há quanto tempo?

“Conheci o Diego em 2020, no Hospital das Clínicas. Ele já era cirurgião de pé e tornozelo. Ele estava fazendo uma especialização de “gaiola” [de reconstrução óssea]. Eu cheguei para fazer cirurgia de trauma. Foi na época da pandemia, tínhamos pouco contato diário, mas, sempre que a gente tinha contato, ele era uma pessoa muito tranquila e carinhosa para lidar. Depois, em 2021, a gente teve um contato maior, trabalhando na cirurgia de reconstrução. Por coincidência, o Perseu passou, naquele ano, a fazer cirurgia de pé e tornozelo no Instituto de Ortopedia e Traumatologia HCFMUSP. Nesta situação, o doutor Corsato foi chefe direto do Perseu. Ele não chegou a ser meu chefe direto, nem do Diego. Mas a gente tinha muito respeito e carinho por ele, porque o doutor Corsato era aquela pessoa que melhorava o ambiente, que cativava as pessoas. Um cara muito agregador, inteligente, capaz, respeitava todo mundo.”

Como você definiria sua relação com o Diego e o Perseu?

“Nós 3 falávamos a mesma língua. Claro, o doutor Corsato também, mas ele estava em outro patamar de conhecimento técnico. Nós 3 éramos muito parecidos no jeito de tratar os pacientes, tínhamos as mesmas brincadeiras. Éramos como 3 irmãos, os 3 gordinhos de barba. Não existia intriga. A gente simplesmente se amava mesmo.”

O que você acha da “resolução” do crime? A polícia tem dado algum retorno das investigações?

“Acho o inquérito uma confusão, tão absurdo quanto o que aconteceu. Mas não consigo enxergar outro motivo para o crime além de engano. Fica uma sensação de revolta e indignação. Ninguém merece morrer, menos ainda pelo tráfico, pior ainda por engano.”

Qual o principal sentimento que fica agora? Você voltaria na Barra?

“O sentimento daquele dia é saudade dos amigos. Estávamos em um dos melhores momentos das nossas vidas e isso nos foi ceifado por motivo torpe. As famílias destruídas e eu, mesmo sobrevivendo, tendo que condicionar muito do meu dia a dia por muito tempo com a certeza de nunca mais ser a mesma coisa de antes. Não fiquei com trauma da Barra, mas precisaria de um motivo muito bom pra voltar pra lá. Os únicos motivos que me faziam ir eram os congressos. Hoje, eles não são suficientes.”

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