O consumo de álcool se tornou uma das maiores preocupações em saúde pública na Bahia, com a capital registrando alarmantes 28,9% de consumo abusivo, quase o dobro de outras cidades brasileiras. Um projeto chamado Horizontes do Cuidado tenta mitigar esse problema através da redução de danos, abordando o abuso de álcool e outras drogas, sem exigir abstinência instantânea.
Os dados do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) mostram que a situação na Bahia é crítica. Implementado há três anos, o projeto é conduzido pela Rede Brasileira de Redução de Danos (Reduc) em parceria com a Plataforma Brasileira de Política de Drogas (PBPD). “O álcool está ligado a altos índices de morte e violência, e é urgente reavaliar sua regulamentação”, destaca Mariana Feregueti, coordenadora do programa.
Além do alcoolismo, a coordenadora alerta sobre o aumento do uso de K9, uma droga sintética com consequências devastadoras. “Estamos percebendo um crescimento no Centro de Salvador que nos acende um sinal de alerta”, afirma Mariana, que busca um novo modelo de tratamento baseado em escuta ativa das pessoas afetadas.
O projeto Horizontes do Cuidado se originou de um levantamento que envolveu a população de diferentes regiões do Brasil. Essa escuta revelou a necessidade de expandir as políticas de redução de danos para além das capitais, onde o atendimento estava concentrado. Por isso, a Superintendência de Políticas Sobre Drogas e Acolhimento a Vulneráveis (Suprad) lançou o edital chamado “Pontos de Cuidado”. O objetivo é aproveitar a infraestrutura existente dos Pontos de Cultura, ligados ao Ministério da Cultura, para promover ações socioculturais nas comunidades.
O financiamento do projeto é oferecido pelo Governo Federal, direcionado a organizações civis que já atuam no amparo a pessoas vulneráveis. “Trabalhamos com uma visão ampliada de direitos, adotando uma abordagem alternativa ao encarceramento”, explica Mariana. Em seu primeiro ano, o projeto levou ações a cidades como Feira de Santana e Vitória da Conquista, expandindo-se para Porto Seguro e Juazeiro neste ano.
A equipe do Horizontes do Cuidado, composta por 11 profissionais, busca parcerias com serviços locais e mapeia fragilidades nos atendimentos. Mariana destaca que o papel do programa é capacitar e mobilizar a população em relação à política de redução de danos.
Luana Malheiro, primeira coordenadora do projeto, defende que a internação não deve ser o ponto de partida no tratamento do vício. “Celebramos 25 anos da Lei da Reforma Psiquiátrica, mas ainda enfrentamos muitos desafios, principalmente nas áreas rurais,” afirma Luana, que agora foca na articulação política e formação de trabalhadores no setor.
Ela enfatiza que a implantação da redução de danos no Brasil está ganhando forma, mas é fundamental que tanto usuários quanto profissionais compreendam esse processo. Luana também observa que os casos graves de dependência devem ser tratados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que oferece uma rede adequada para o atendimento à saúde mental em questões de álcool e drogas.
