InícioEditorialEntretenimentoHeteropessimismo: por que algumas mulheres têm aversão a homens?

Heteropessimismo: por que algumas mulheres têm aversão a homens?

Você, com certeza, já deve ter se deparado com algumas mulheres reclamando dos últimos relacionamentos que tiveram ou das pessoas com as quais se relacionaram. A onda de descrença parte, na maioria das vezes, daquelas que se envolvem em relações heterossexuais. O sentimento, muitas vezes, é coletivo. E tem sido mais recorrente nos últimos anos, a ponto de ganhar uma alcunha: heteropessimismo.

Ele tende a vir à tona quando alguns relatos que envolvem famosos tomam a web.

Recentemente, o caso do ator Luis Navarro, que se separou da esposa enquanto ela estava no puerpério porque “precisava se encontrar” e do coach da Campari, Thiago Schutz, que ensina métodos machistas para conquistar mulheres, foram alguns motivadores da discussão sobre padrões comportamentais que esbarram no machismo e em um sistema que oprime e deslegitima mulheres héteros.

Casos de estupro, de agressões e toxicidade em relacionamentos, por parte dos homens, levantam a sensação de pessimismo em mulheres heterossexuaisCansada de homem

— Ingrid Serafim (@_srfingrid) March 4, 2023

De onde vem esse cansaço?É fato que as relações amorosas têm caminhos e finais parecidos, e que as mulheres julgam conhecer de cor. “Eu passei por vários relacionamentos e conheci homens que não se comprometem, não têm responsabilidade afetiva e carregam traços de uma masculinidade tóxica”, conta uma jovem brasiliense que não preferiu não ser identificada.

Esse cansaço coletivo vem, por vezes, da repetição de histórias e narrativas frustrantes. Seja pela forma como lidam com a relação; seja pela maneira como tratam as mulheres, como interpretam as diferenças de gênero ou se tornam agressivos… Não sobram razões para que esse sentimento negativo encontre terreno e força no imaginário e nas vivências femininas.

“É frustrante e é cansativo [se relacionar com homens]. A gente sempre luta, tenta fazer diferente, conhecer outras pessoas e frequentar outros lugares, e a situação, no fundo, é sempre a mesma. No final, as coisas acontecem iguais”, desabafa a jornalista Natália Bosco.

Após diversas experiências negativas e relatos parecidos de outras amigas, como ainda ter esperança de que algo possa ser diferente em algum momento? Na intenção de definir essa sensação de cansaço e até descrença sobre as relações em que eles se envolvem, a pesquisadora norte-americana Asa Seresin utilizou, em 2019, pela primeira vez, o termo heteropessimismo:

“O heteropessimismo consiste em ‘desafiliações’ performativas com a heterossexualidade, geralmente expressas na forma de arrependimento, constrangimento ou desesperança em relação a experiência heterossexual”, escreveu Seresin em um artigo na Astra Magazine.

HeteropessimismoConforme explica a psicóloga clínica e Co-Fundadora do Papo Preta, Shenia Karlsson, o heteropessimismo é um sentimento generalizado e compartilhado coletivamente “sobretudo nas relações heterossexuais”.

Ao Metrópoles, a especialista conta que esse fenômeno desperta uma reação negativa nas mulheres:

“Ele causa negatividade, decepção, constrangimento, desesperança e desespero acerca das relações conjugais e heterossexuais”, explica a profissional.

Para entender de onde surge esse fenômeno, Shenia explica que é preciso olhar a forma como os relacionamentos heterossexuais se desenvolveram por muitos anos. “Foi construída uma submissão da mulher dentro desse modelo e uma objetificação dos nossos corpos, que nos colocaram nas periferias das relações e das nossas próprias escolhas”, salienta.

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Mulheres têm aceitado cada vez menos situações de abuso nos relacionamentosGetty Images

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Devido a casos passados e histórias de pessoas próximas e famosas, algumas acabam se blindando de novos relacionamentosGetty Images

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Algumas desenvolvem o fenômeno chamado heteropessimos, que consiste na descrença de que relacionamentos héteros podem ser diferentes e melhores que os do passadoGetty Images

Estresse – ansiedade – mulçumana

O Metrópoles conversou com uma especialista que explica esse conceitoGetty Images

Subjugadas aos homens em um relacionamento, a sociedade patriarcal desenvolveu o estigma de que elas foram criadas para agradá-los e que, só depois de encontrarem um parceiro único, serão capazes de atingir o amplo sucesso.

“Quando a mulher não goza deste capital social em que os relacionamentos amorosos foram colocados, é vista como uma fracassada”, comenta.

Essa ideia, no entanto, tem sido desfeita. O movimento feminista criou a consciência de que elas não precisam e nem devem aceitar situações de abuso e/ou violência para se manterem em um relacionamento – nem devem sentir obrigadas a estarem em uma relação amorosa.

Assista a entrevista completa de Shenia Karlsson:

A própria experiência em jogoAs relações amoras, definitivamente, não precisam ser pautadas pelo abuso, submissão e muito menos agressão como talvez nossas avós e até mães acreditam ou acreditaram por muitos anos. Essa estado de consciência, no entanto, causa uma reflexão sobre o passado da própria mulher que, raramente, passou ilesa a um relacionamento tóxico.

“As mulheres estão liderando o ranking do heteropessimismo porque quando a gente olha para nossas experiências afetivas, acabamos focando naquilo que foi negativo, nas queixas e no que deu errado”, analisa Shenia.

“Como mulher, hétero, a minha relação com homens héteros, quando eu me envolvo romanticamente com esses homens, pode ser resumida em frustração. É muito frustrante me ver passando várias vezes pela mesma situação e ver que as minhas amigas também passam por outras muito semelhantes”, lamenta Natália.

Além da própria experiência, as redes sociais também ajudam nesse feeling coletivo quando grandes casos vêm à tona. Entre os exemplos que causaram revolta na web recentemente, podemos citar os casos do Daniel Alves; do ex-participante do BBB Gabriel Fop; do ator Luís Navarro e do coach da Campari, Thiago Schutz — clique no link em cima dos nomes para entender cada caso.

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Daniel AlvesAlfredo Moya/Jam Media/Getty Images

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Gabriel FopFoto: Globoplay/Divulgação

Luis Navarro e Ivi Pizzott são pais de Kali, que tem 4 anos, e Zuri, que tem apenas 4 meses

Luis NavarroInstagram/Reprodução

Thiago Schutz

Thiago SchutzReprodução/ YouTube

As consequências da masculinidade tóxicaPara muitas mulheres, os traumas de relacionamentos passados podem acabar gerando danos na construção de suas futuras relações. “Tenho consciência de que carrego uma marca desse cansaço e dessa frustração em relação aos homens”, pontua Bosco.

“Toda vez que eu conheço um cara e ele começa a me falar coisas legais, eu duvido. Eu sempre penso: já ouvi isso antes. Sempre duvido. Você vai parando de acreditar que pode ver uma coisa legal ou que alguma coisa pode acontecer com você, romanticamente falando”, avalia a jornalista.

Shenia explica que essa descrença relatada por Natália tem sido um sentimento comum, mas vê um ponto positivo nisso tudo. A psicóloga acredita que as relações futuras tendem a ser mais saudáveis e prazerosas para ambos os lados.

“A não aceitação da mulher em relacionamentos ruins pode acabar impulsionando os homens a se tornarem pessoas e parceiros melhores. Mais companheiros e menos machistas”, elucida.

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