A gente até dá risada do humor sombrio (e meio perigoso) diluído no texto do ótimo Os Banshees de Inisherin, que disputa nove categorias do Oscar e chega hoje aos cinemas nacionais. Mas é um riso que traduz um certo constrangimento e fica meio engasgado no espectador. Até porque não há nada de engraçado na premissa básica da trama dirigida por Martin McDonagh (do excelente Três Anúncios para um Crime/2017): a solidão brutal e a falta de perspectiva que provocam o antagonismo entre amigos que vivem numa ilha isolada na costa irlandesa.
É neste cenário que mistura o idílico com o ancestral que moram Colm (Brendan Gleeson) e Pádraic (Colin Farrell). Compositor dedicado, o introspectivo Colm interrompe seus solos de violino apenas para jogar conversa fora no único pub do lugar com o simplório fazendeiro Pádraic, que aguarda ansioso o compromisso diário. A relação muda quando, de repente, o músico avisa que vai romper relações com o outro. Pior, ameaça cortar um dedo cada vez que Pádraic tentar falar com ele. “É a ação mais radical que existe eliminar a coisa mais valiosa para ele, aquilo que permite expressar sua habilidade artística”, explica Gleeson.
“Queria capturar a tristeza do fim de um relacionamento, então pensei na quebra da amizade desses dois. E queria uma história que fosse ficando cada vez mais triste e sombria, mas que também oferecesse humor. O mundo é um lugar sombrio em que você precisa rir, ou vai chorar o tempo todo”, resume o diretor, autor também do roteiro.
Veja o trailer de Os Banshees de Inisherin:
Filmado entre as ilhas de Inishmore e Achill, na costa oeste da Irlanda, Os Banshees de Inisherin tem no cenário deslumbrante, embora extremamente rústico, um aspecto importante da história. Essa dureza funciona como a metáfora perfeita para almas que se acostumam com o ‘nada para fazer’ ou largam tudo para trás. Ou 8 ou 80. Simples assim, sem mais alternativas.
O elenco inteiramente irlandês responde em perfeita sintonia a essa proposta. Não à toa os quatro atores de maior destaque receberam indicações nas principais premiações da temporada. Farrell foi premiado em Veneza (onde o filme foi aplaudido de pé por 12 minutos) e no Globo de Ouro. Ele é também favorito para melhor ator no Oscar, premiação em que Gleeson foi indicado a melhor ator coadjuvante com Barry Keoghan, que vive o abobalhado Dominic e intermedia a briga entre os amigos. Kerry Condon, que interpreta a irmã de Pádraic, concorre a melhor atriz coadjuvante.
Martin McDonagh pondera que seu filme reflete o mundo polarizado:
“É uma história sobre uma pequena desavença que vai crescendo e se transforma praticamente em uma guerra. Acho que nós, especialmente os homens, precisamos ser mais abertos e tentar enxergar o ponto de vista do outro”.
Curioso é que a trama se passa em 1923, período em que a Irlanda vivia uma guerra civil, conflito que terminou dividindo o território entre a Irlanda e a Irlanda do Norte. É como se os personagens vivessem uma guerra dentro de uma guerra.
“Por mais macabro ou engraçado que seja o cenário, há uma autenticidade no núcleo do trabalho de Martin que procura entender a razão de sermos assim, como lidamos com a violência e como sofremos com a solidão”, pondera Farrell.
Amigos na vida pessoal, McDonagh, Farrell e Gleeson já haviam trabalhado juntos em Na Mira do Chefe (2008), longa de estreia do cineasta, que recebeu indicação ao Oscar pelo roteiro. “Martin é um diretor que tem sempre muito controle sobre o set, mas que também promove uma experiência colaborativa, está sempre aberto a escutar”, diz Gleeson.